Alguns consideram que o poder senhorial não tem nenhum fundamento na natureza e pretendem que esta nos criou a todos livres, e a escravidão só foi introduzida pela lei do mais forte e é, por si mesma, injusta como um puro efeito da violência.
Existem dois tipos de instrumentos: uns inanimados, outros animados. Assim é que, para a navegação, o leme é o instrumento inanimado e o comandante, o instrumento animado. Em todas as artes, o trabalhador é uma espécie de instrumento. Chama-se "instrumento" o que realiza o efeito, e "propriedade doméstica" o que ele produz.
O tear, por exemplo, e o torno, além do exercício que nos proporciona seu uso, fornecem-nos ainda pano e camas; ao passo que o pano e a cama que eles nos produzem se limitam ao nosso simples uso.
O senhor não é senão o proprietário de seu escravo, mas não lhe pertence; o escravo, pelo contrário, não somente é destinado ao uso do senhor, como também dele é parte. Isto basta para dar uma ideia da escravidão e para fazer conhecer esta condição.
O homem que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a um outro, é “escravo por natureza”: é uma posse e um instrumento para agir separadamente e sob as ordens de seu senhor.
A Servidão Natural
Mas faz a natureza ou não de um homem um escravo? É justa e útil a escravidão ou é contra a natureza? É isto que devemos examinar agora. O fato e a experiência, tanto quanto a razão, nos conduzirão aqui ao conhecimento.
Não é apenas necessário, mas também vantajoso que haja mando por um lado e obediência por outro; e todos os seres, desde o primeiro instante do nascimento, são, por assim dizer, marcados pela natureza, uns para comandar, outros para obedecer.
Entre eles, há várias espécies de superiores ou de súditos, e o mando é tanto mais nobre quanto mais elevado é o próprio súdito. Assim, mais vale comandar homens do que animais. O que se realiza mediante melhores agentes é sempre mais bem realizado.
É preciso, portanto, como dissemos, considerar nos seres animados a autoridade do senhor e a do magistrado, a do senhor a alma exerce autoridade sobre o corpo; a segunda é a razão que exerce poder sobre as paixões humanas. É claro que o comando, nestas duas espécies, é conforme à natureza, assim como ao interesse de todas as partes, e a igualdade ou a alternância seriam muito nocivas a ambas. (...)
Todos os que não têm nada melhor para nos oferecer do que o uso de seus corpos e de seus membros são condenados pela natureza à escravidão. Para eles, é melhor servirem do que serem entregues a si mesmos.
Numa palavra, é naturalmente escravo aquele que tem tão pouca alma e poucos meios que resolve depender de outra pessoa. Tais são os que só têm instinto, vale dizer, que percebem muito bem a razão nos outros, mas que não fazem por si mesmos uso dela. Toda a diferença entre os escravos e os animais é que os animais não participam de modo algum da razão, nem mesmo têm o sentimento dela e só obedecem a suas sensações. Ademais, o uso dos escravos e dos animais é mais ou menos o mesmo e tiram-se deles os mesmos serviços para as necessidades da vida.
A natureza, por assim dizer, imprimiu a liberdade e a servidão até nos hábitos corporais. Vemos corpos robustos talhados especialmente para carregar fardos e outros usos igualmente necessários; outros, pelo contrário, mais disciplinados, mas também menos robustos e incapazes de tais trabalhos, são bons apenas para a vida política, isto é, para os exercícios da paz e da guerra.
Limitando-nos aos aspectos materiais não hesitamos em acreditar que os indivíduos inferiores devem ser submissos. Se isto é verdade quando se trata do corpo, por mais forte razão devemos dizê-lo da alma.
Não pretendemos agora estabelecer nada além de que, pelas leis da natureza, há homens feitos para a liberdade e outros para a servidão, os quais, tanto por justiça quanto por interesse, convém que sirvam. No entanto, é fácil ver que a opinião contrária não seria inteiramente desprovida de razão. (...)
O que convém ao todo convém também à parte; o que convém à alma convém igualmente ao corpo. Ora, o escravo faz, por assim dizer, parte de seu senhor: embora separado na existência, é como um membro anexado a seu corpo. Ambos têm o mesmo interesse e nada impede que estejam ligados pelo sentimento da amizade, quando foi a conveniência natural que os reuniu. As coisas são diferentes quando eles só estão reunidos pelo rigor da lei ou pela violência dos homens. (Aristóteles, POLÍTICA, p. 8-12 [trecho adaptado]).
Atividade individual (10 pontos)
Atividade individual (10 pontos)
1_ Qual a diferença, para Aristóteles, entre "instrumento inanimado" e "animado"?
2_Como Aristóteles define o "escravo por natureza"? Quais características ele atribui a esses indivíduos?
2_Como Aristóteles define o "escravo por natureza"? Quais características ele atribui a esses indivíduos?
3_Quais são os argumentos que Aristóteles usa para justificar a escravidão como "justa e útil"?
4_"Você concorda com a ideia de que algumas pessoas nascem para obedecer e outras para mandar? Por quê?"
4_"Você concorda com a ideia de que algumas pessoas nascem para obedecer e outras para mandar? Por quê?"
5_"É possível que alguém seja 'naturalmente' um instrumento para o outro?"
6_"Como a visão de Aristóteles sobre o trabalho difere da nossa visão hoje? Onde residem as maiores diferenças?"

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