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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Comentário sobre "Teoria Tradicional e Teoria Crítica" (1937) de Horkheimer

O texto "Teoria Tradicional e Teoria Crítica" é uma tentativa de Horkheimer de diagnosticar o seu tempo presente e verificar quais foram os impedimentos que impossibilitaram que o proletariado se reconhecesse como sujeito objeto-idêntico e que, portanto, o sistema capitalista e suas mazelas fossem superados. Na análise Horkheimer chega à conclusão que seria necessário não mais fazer a crítica ao sistema capitalista com um sistema que todos estavam exaustos de falarem, como um sistema opressor, explorador, e sim fazer uma crítica ao sistema ideológico que lhe dá sustentação. Chegamos, portanto, a teoria tradicional que segundo Horkheimer é o alicerce ideológico do capitalismo. Percebe-se uma mudança de paradigma em relação à Lukács, ou seja, que não caberia mais partir para uma práxis revolucionária, mas sim para uma teoria que fosse crítica da sociedade. Uma teoria que fosse em si mesma prática, capaz de transformar a realidade.

(I) Razão Instrumental:

Ela é considerada incapaz de fundamentar ou propor em discussão os objetivos ou finalidades com que os homens orientam suas próprias vidas, ela se ocupa apenas com a racionalidade dos meios e não dos fins. A razão é instrumental porque só pode identificar, construir e aperfeiçoar os instrumentos ou meios adequados para alcançar fins estabelecidos e controlados pelo “sistema” (sociedade administrada) a totalidade tendo em vista a anulação a destruição do indivíduo.

(II) Razão vital:

É a razão que se preocupa com o mundo dos homens e com a realização plena do conceito de homem, é uma razão crítica que é capaz de orientar e propor os fins propriamente humanos. A razão substantiva é crítica em si mesmo, só ela é capaz de transformar a realidade sem cair em ideologias ou práticas cegas.


Tese: "O pensamento crítico é motivado pela tentativa de superar realmente a tensão, de eliminar a oposição entre a consciência dos objetivos, espontaneidade e racionalidade, inerentes ao indivíduo, de um lado, e as relações do processo de trabalho, básicas para a sociedade, de outro. O pensamento crítico contém um conceito de homem que contraria a si enquanto não ocorrer esta identidade. Se é próprio do homem que seu agir seja determinado pela razão, a práxis social dada, que dá forma ao modo de ser (Dasein), é desumana, e essa desumanidade repercute sobre tudo o que ocorre na sociedade. Sempre permanecerá algo exterior à atividade intelectual e material, a saber, a natureza como uma sinopse de fatos ainda não dominados, com os quais a sociedade se ocupa. Mas neste algo exterior incluem-se também as relações constituídas unicamente pelos próprios homens, isto é, seu relacionamento no trabalho e o desenrolar de sua própria história, como um prolongamento da natureza. Essa exterioridade não é, contudo, uma categoria suprahistórica ou eterna – isso também não seria a natureza no sentido assinalado aqui –, mas sim o sinal de uma impotência lamentável e aceitá-la seria anti-humano e anti-racional.” (p.140)"

Horkheimer está descrevendo o que caracteriza o pensamento crítico e por que ele é diferente do pensamento conformista ou “tradicional”.

1. Há uma tensão fundamental na sociedade moderna

De um lado: a racionalidade, a consciência dos objetivos, a espontaneidade;  todas características do indivíduo humano.

Do outro:

as relações sociais de trabalho, o modo como a sociedade organiza a produção, que frequentemente não seguem a racionalidade do indivíduo, mas a da dominação, da alienação e do controle.

* O indivíduo tende a ser racional, mas o sistema de trabalho o impede de agir racionalmente.

2. O pensamento crítico nasce da tentativa de superar essa tensão

Enquanto essa oposição existir, o ser humano não coincide consigo mesmo: ele possui uma natureza racional, mas vive numa sociedade que não permite que essa racionalidade se realize. Por isso Horkheimer diz: "O pensamento crítico contém um conceito de homem que contraria a si enquanto não ocorrer esta identidade." Ou seja: o conceito de “humano racional” ainda não se realizou historicamente.

3. A práxis social existente é desumana

Horkheimer afirma que:
se o agir humano deveria ser determinado pela razão, e se a sociedade não permite isso, então a sociedade é desumana. Essa desumanidade contamina tudo: cultura, economia, política, relações pessoais.

4. Sempre existe algo exterior à razão: a natureza

Mas “natureza” aqui significa: os fatos ainda não dominados, aquilo que a sociedade ainda não controla plenamente. E Horkheimer acrescenta algo muito importante:

5. As próprias relações sociais também viraram “natureza”

Isto é: o modo como os homens trabalham, como produzem, como organizam a história, apesar de serem criações humanas, aparecem como se fossem forças naturais, inquestionáveis, dadas.

Exemplo contemporâneo:
“o mercado funciona assim”, “não há alternativa”, “a tecnologia exige isso”, etc.

* As relações humanas se tornam coisas, e por isso parecem exteriores e inevitáveis.

6. Essa exterioridade não é eterna

Nada disso é natural em sentido absoluto. É apenas expressão da: “impotência lamentável” dos seres humanos diante de suas próprias criações sociais. Aceitar essa impotência seria: anti-humano e anti-racional

Porque equivaleria a renunciar à capacidade humana de transformar a sociedade segundo a razão.

+ Em síntese,

Horkheimer está dizendo que:

O ser humano é racional por natureza.
Mas vive numa sociedade que não permite que sua racionalidade se realize.
O pensamento crítico existe para superar essa contradição, transformando as relações sociais.
Relações sociais que parecem naturais ou inevitáveis (como formas de trabalho, hierarquias, modos de produção) não são naturais; são resultado da história e podem ser transformadas.
Aceitar essas relações como “naturais” é negar o que há de humano e racional em nós.

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Horkheimer, Teoria tradicional e teoria crítica 

Referência: HORKHEIMER, Max. Teoria Tradicional e Teoria Crítica. In: ________. Os Pensadores. v. XLVIII. São Paulo: Victor Civita, 1975, pp. 125-169.

https://grupocriticaedialetica.wordpress.com/wp-content/uploads/2013/05/horkheimer-tttc1.pdf

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Manuscritos econômico-filosóficos de Karl Marx (1844)

1. O que são os Manuscritos?

    São cadernos de estudo escritos por Marx em Paris, em 1844, durante sua fase de formação filosófica e econômica. Não foram publicados em vida.

    Mostram Marx ainda dialogando intensamente com Hegel e Feuerbach, e ao mesmo tempo estudando a economia política inglesa (Smith, Ricardo, Stuart Mill).

Eles são fundamentais porque revelam:

  •     a primeira formulação da teoria da alienação;
  •     a concepção do trabalho como atividade vital humana;
  •     o início da crítica estrutural ao capitalismo;
  •     o esboço filosófico do conceito de ser genérico (Gattungswesen).


2. Três eixos

(1) Crítica à economia política

Marx estuda os economistas clássicos e conclui que:

  • A economia burguesa trata o trabalhador como mercadoria.

  • A produção de riqueza envolve, simultaneamente, a produção de pobreza (empobrecimento relativo e, em certos casos, absoluto).

  • O trabalho, que deveria ser uma atividade humana livre e criativa, torna-se trabalho alienado.

  • No capitalismo, o trabalhador não controla:

    - o produto do trabalho,

    - o processo de trabalho,

    - o sentido ou finalidade do trabalho,

    - nem suas relações com os demais trabalhadores.

(2) O conceito de trabalho alienado

É o centro filosófico dos Manuscritos.

Marx identifica quatro dimensões da alienação:

  1. Do produto – o trabalhador cria algo que não lhe pertence.

  2. Da atividade – o trabalho se torna externo, forçado, reduzido a meio de sobrevivência.

  3. Da essência humana – a atividade vital deixa de ser livre e criadora; o ser humano se reduz a instrumento.

  4. Do outro ser humano – as relações se reduzem ao mercado: competição, interesse, exploração.

    Alienar significa separar o trabalhador de algo que deveria pertencer a ele como ser humano: sua criatividade, seu tempo, sua relação com a natureza e com os outros.

(3) O ser genérico (Gattungswesen)

Marx formula uma pergunta filosófica básica: O que é o ser humano?

A resposta, nos Manuscritos, é antropológica, social e histórica:

  • O ser humano não é definido por uma alma nem por uma razão abstrata.

  • Ele se define pela capacidade de produzir sua existência, transformar a natureza conscientemente e viver socialmente.

Por isso, Marx diz que o ser humano é um ser genérico (Gattungswesen).

Ser genérico significa:

(a) capacidade de projetar, criar, imaginar — ultrapassar o imediato;
(b) capacidade de se relacionar consigo e com os outros de forma consciente e mediada pelo trabalho;
(c) uma existência essencialmente social, nunca isolada;
(d) uma essência construída historicamente, não natural ou fixa.

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(4)  O trabalho


O trabalho é, portanto:

- expressão da essência humana (Wesen des Menschen)
- mediação fundamental entre homem e natureza;
- atividade livre, criadora e consciente (em potencial).

* A alienação é justamente a destruição da possibilidade de efetuação da essência humana.


5. Hegel e Feuerbach

De Hegel, Marx herda a ideia de que a realidade é histórica, dinâmica e contraditória.   Mas critica Hegel por seu idealismo. Para Marx, o sujeito real não é o Espírito, mas o ser humano concreto em sua vida material.

De Feuerbach, Marx herda o materialismo humanista: a essência humana é social, não espiritual. Mas substitui o “materialismo contemplativo” por um materialismo histórico e prático.

Feuerbach observa a alienação na religião; Marx desloca a crítica para a produção material, onde a alienação se origina.


6. Jovem Marx → Marx maduro

Os Manuscritos mostram o processo de metamorfose intelectual:

Marx jovem:

  • crítica humanista do capitalismo;

  • linguagem de essência, natureza humana, ser genérico.

Marx maduro (O Capital):

  • crítica científica e estrutural do capitalismo;

  • categorias como valor, mais-valia, mercadoria, fetichismo*;

  • abandono da linguagem essencialista.


  * Marx não abandona a ideia de alienação; ele a reformula como fetichismo da mercadoria.


5. Questões 

    O que significa trabalhar para sobreviver, e não para se realizar?

    Trabalhar para sobreviver significa que a atividade laboral é reduzida a meio de subsistência,  não expressando sua individualidade nem suas capacidades criadoras.

    Trabalhar para se realizar é a atividade vital pela qual o ser humano objetiva a si mesmo, encontrando no produto a materialização de sua liberdade.    

 Como a alienação aparece hoje (no trabalho digital, plataformas,      automação)?

1. Produto alienado
O que produzimos vira propriedade das plataformas (posts, dados, conteúdo, avaliações).
Quem ganha mais é a empresa, não o trabalhador.

2. Trabalho controlado por algoritmos
Plataformas decidem rotas, horários, relevância, metas e visibilidade (Uber, iFood, Instagram).
A pessoa perde controle sobre sua própria atividade.

3. Trabalho vira sobrevivência, não realização
A lógica é cumprir tarefas para “bater meta”, conseguir corrida, manter engajamento ou avaliação — não criar, aprender ou se desenvolver.

4. Relações sociais viram números
Likes, entregas por hora, notas de usuários, métricas de performance.
As pessoas aparecem como “clientes”, “seguidores” ou “concorrência”.

5. Automação aprofunda a dependência
Máquinas e IA fazem parte do trabalho, mas quem decide tudo é o sistema.
O trabalhador executa o que o algoritmo manda.

O trabalhador controla o que produz ou participa só de um fragmento?

No capitalismo, em geral não. O trabalhador participa apenas de um fragmento do processo produtivo.

Por quê?

O trabalho é dividido em tarefas pequenas e repetitivas.

Quem decide o que fazer, como fazer e para quê fazer é a empresa, não o trabalhador.

O produto final é resultado de uma cadeia enorme – o trabalhador vê apenas sua parte, não o todo.

Resultado (alienação):

O trabalhador não reconhece o produto como seu.

Não controla o processo, nem os objetivos.

A atividade perde sentido e vira apenas meio de sobrevivência.

  • O que Marx quer dizer exatamente com “essência humana”?

    Para Marx, a essência humana não é algo natural ou individual, mas social e histórica. Ela consiste no conjunto das relações sociais e na capacidade de produzir conscientemente a própria vida. O ser humano se define pelo trabalho criador e pela vida em comum, mas no capitalismo essa essência é alienada, porque o trabalho deixa de ser livre e se torna apenas um meio de sobrevivência e não de realização.
  • Em que o jovem Marx difere do Marx de O Capital?

O jovem Marx (dos Manuscritos de 1844) pensa o capitalismo a partir de categorias filosófico-humanistas, como alienação, essência humana e realização da espécie. Ele se preocupa com a experiência subjetiva do trabalhador, com a perda de sentido no trabalho e com a ideia de ser genérico. Sua crítica é mais ética e antropológica.

Já o Marx de O Capital faz uma análise científica, econômica e estrutural do modo de produção capitalista. Ele explica como o capitalismo funciona por meio de categorias como mais-valia, capital, mercadoria, força de trabalho, acumulação, e mostra as leis objetivas do sistema. A alienação reaparece como fetichismo da mercadoria, não mais como essência humana negada.

Em resumo:

O jovem Marx critica o capitalismo a partir do humanismo e da alienação; o Marx maduro analisa o capitalismo a partir da economia política, das relações de produção e das leis do capital.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

"Racismo estrutural"

    Sílvio Luiz de Almeida defende a tese do sociedade "racismo estrutural". "Comportamentos individuais e processos institucionais são derivados de uma sociedade cujo racismo é regra e não exceção", afirma o autor. Este racismo se manifesta de diversas formas, dentre elas nas instituições ("racismo institucional": instituições públicas e privadas, escolas, empresas). 
    No texto abaixo, o conceito de racismo institucional é exposto por Almeida. 
    
    O conceito de racismo institucional foi um enorme avanço no que se refere ao estudo das relações raciais. Primeiro, ao demonstrar que o racismo transcende o âmbito da ação individual, e, segundo, ao frisar a dimensão do poder como elemento constitutivo das relações raciais, não somente o poder de um indivíduo de uma raça sobre outro, mas de um grupo sobre outro, algo possível quando há o controle direto ou indireto de determinados grupos sobre o aparato institucional.

    Entretanto, algumas questões ainda persistem. Vimos que as instituições reproduzem as condições para o estabelecimento e a manutenção da ordem social. Desse modo, se é possível falar de um racismo institucional, significa que a imposição de regras e padrões racistas por parte da instituição é de alguma maneira vinculada à ordem social que ela visa resguardar. Assim como a instituição tem sua atuação condicionada a uma estrutura social previamente existente – com todos os conflitos que lhe são inerentes –, o racismo que essa instituição venha a expressar é também parte dessa mesma estrutura. As instituições são apenas a materialização de uma estrutura social ou de um modo de socialização que tem o racismo como um de seus componentes orgânicos. Dito de modo mais direto: as instituições são racistas porque a sociedade é racista.

   Esta frase aparentemente óbvia tem uma série de implicações.     A primeira é a de que, se há instituições cujos padrões de funcionamento redundam em regras que privilegiem determinados grupos raciais, é porque o racismo é parte da ordem social. Não é algo criado pela instituição, mas é por ela reproduzido. Mas que fique a ressalva já feita: a estrutura social é constituída por inúmeros conflitos – de classe, raciais, sexuais etc. –, o que significa que as instituições também podem atuar de maneira conflituosa, posicionando-se dentro do conflito. Em uma sociedade em que o racismo está presente na vida cotidiana, as instituições que não tratarem de maneira ativa e como um problema a desigualdade racial irão facilmente reproduzir as práticas racistas já tidas como “normais” em toda a sociedade.

    É o que geralmente acontece nos governos, empresas e escolas em que não há espaços ou mecanismos institucionais para tratar de conflitos raciais e sexuais. Nesse caso, as relações do cotidiano no interior das instituições vão reproduzir as práticas sociais corriqueiras, dentre as quais o racismo, na forma de violência explícita ou de microagressões – piadas, silenciamento, isolamento etc. Enfim, sem nada fazer, toda instituição irá se tornar uma correia de transmissão de privilégios e violências racistas e sexistas. De tal modo que, se o racismo é inerente à ordem social, a única forma de uma instituição combatê-lo é por meio da implementação de práticas antirracistas efetivas. É dever de uma instituição que realmente se preocupe com a questão racial investir na adoção de políticas internas que visem:

a. promover a igualdade e a diversidade em suas relações internas e com o público externo – por exemplo, na publicidade;
b. remover obstáculos para a ascensão de minorias em posições de direção e de prestígio na instituição;
c. manter espaços permanentes para debates e eventual revisão de práticas institucionais
d. promover o acolhimento e possível composição de conflitos raciais e de gênero.

    A segunda consequência é que o racismo não se limita à representatividade. Ainda que essencial, a mera presença de pessoas negras e outras minorias em espaços de poder e decisão não significa que a instituição deixará de atuar de forma racista. A ação dos indivíduos é orientada, e muitas vezes só é possível por meio das instituições, sempre tendo como pano de fundo os princípios estruturais da sociedade, como as questões de ordem política, econômica e jurídica. Isso nos leva a mais duas importantes e polêmicas questões:
    
1. a supremacia branca no controle institucional é realmente um problema, na medida em que a ausência de pessoas não brancas em espaços de poder e prestígio é um sintoma de uma sociedade desigual e, particularmente, racista. 

Portanto, é fundamental para a luta antirracista que pessoas negras e outras minorias estejam representadas nos espaços de poder, seja por motivos econômicos e políticos, seja por motivos éticos. Mas seria tal medida suficiente? É uma prática antirracista efetiva manter alguns poucos negros em espaços de poder sem que haja um compromisso com a criação de mecanismos institucionais efetivos de promoção da igualdade?

2. a liderança institucional de pessoas negras basta quando não se tem poder real, projetos e/ou programas que possam de fato incidir sobre problemas estruturais, como as questões da ordem da economia, da política e do direito?

Em resumo: o racismo é uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo “normal” com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional. 

O racismo é estrutural. Comportamentos individuais e processos institucionais são derivados de uma sociedade cujo racismo é regra e não exceção. O racismo é parte de um processo social que ocorre “pelas costas dos indivíduos e lhes parece legado pela tradição”. Nesse caso, além de medidas que coíbam o racismo individual e institucionalmente, torna-se imperativo refletir sobre mudanças profundas nas relações sociais, políticas e econômicas.

Atividade:

Cada grupo deverá responder por escrito a duas perguntas específicas e duas perguntas iguais para todos os grupos:

Grupo 1:

a) Qual a diferença entre racismo institucional e individual?
b) De que forma o racismo institucional contribui para a exclusão de pessoas negras
dos espaços de prestígio e poder no mundo do trabalho?
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

Grupo 2:

a) Por que as instituições reproduzem o racismo, mesmo sem 
intenção?
b) Explique como a ausência de políticas institucionais antirracistas em empresas e organizações pode favorecer a reprodução de desigualdades raciais no mercado de
trabalho.
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

Grupo 3:

a) Representatividade resolve tudo? Por quê?
b) Explique por que é fundamental que as instituições de trabalho adotem ações afirmativas e espaços de debate sobre desigualdades raciais.
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

Grupo 4:

a) Por que a presença de algumas pessoas negras em cargos de chefia não é suficiente
para garantir igualdade racial nas instituições de trabalho, segundo o autor?
b) Analise os efeitos da supremacia branca no controle institucional e sua relação com a baixa representatividade de pessoas negras em cargos de liderança no mercado de trabalho.
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

Grupo 5:

a) Como o racismo estrutural impacta as oportunidades de ascensão profissional de trabalhadores negros em comparação com trabalhadores brancos? Use argumentos do texto para embasar sua resposta.
b) O texto destaca que o racismo é parte da “ordem normal” das relações sociais. Que práticas institucionais seriam necessárias para transformar essa realidade no mundo do trabalho?
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

Grupo 6:

a) De que forma as instituições contribuem para a manutenção do racismo estrutural, segundo o autor? Relacione com exemplos da vida cotidiana.
b) O texto afirma que “as instituições são racistas porque a sociedade é racista”. Analise essa afirmação e discorra sobre suas possíveis implicações para o combate ao racismo.
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Filosofia no Enem

Temas mais cobrados (2009–2024)

  1. Filosofia política — 20 questões (11%)

  2. Moral e ética — 15 questões (8%)

  3. Aristóteles — 10 questões (5%)

  4. Origens da modernidade — 8 questões (4%)

  5. Descartes — 8 questões (4%)

  6. Filosofia medieval — 8 questões (4%)

  7. Pré-socráticos (Naturalistas) — 8 questões (4%)

  8. Cultura e sociedade — 7 questões (3%)

  9. Epistemologia — 7 questões (3%)

  10. Filosofia antiga — 7 questões (3%)

  11. Filosofia contemporânea — 7 questões (3%)

  12. Kant — 7 questões (3%)

  13. Escola de Frankfurt — 6 questões (3%)

  14. Escolas helenísticas — 6 questões (3%)

  15. Platão — 6 questões (3%)


1. Filosofia Política (tema mais cobrado)


Platão

Conceito de cidade ideal


Aristóteles

"O homem é um animal político"

Aristóteles dividiu as formas de governo em seis tipos, classificados por quem governa (um, poucos ou muitos) e com que objetivo (bem comum ou interesse particular). 

As formas puras (que buscam o bem comum) são a monarquia (governo de um), a aristocracia (governo dos melhores, ou poucos) e a politeia ou república (governo de muitos). As formas corrompidas (que visam o interesse próprio) são a tirania (monarquia corrompida), a oligarquia (aristocracia corrompida) e a democracia (politeia corrompida, também chamada de demagogia). 

Formas puras (em busca do bem comum)

Monarquia: Governo de um único indivíduo (o melhor), que governa em benefício de todos.
Aristocracia: Governo dos "melhores", um grupo de poucos que governa para o bem de todos.

Politeia (República): Governo da maioria, que governa de acordo com a lei para o bem comum. Aristóteles a considerava a forma mais adequada na prática, pois permitia a alternância de poder entre os cidadãos e o governo seria mais estável e justo, com base nas leis. 

Formas corrompidas (em busca do interesse particular)

Tirania: Forma degenerada da monarquia, onde um único indivíduo governa para benefício próprio.

Oligarquia: Forma corrompida da aristocracia, onde o poder é exercido por poucos, geralmente os ricos, em seu próprio interesse.

Democracia (demagogia): Forma corrompida da politeia, onde o governo dos muitos (pobres) é usado em benefício próprio, ignorando os interesses do bem comum. Aristóteles via a demagogia como uma degeneração da democracia, onde os políticos prometem o que o povo quer, em vez do que ele precis




- O Príncipe → realismo político: o poder como ele é, não como deveria ser.

- É melhor ser temido do que amado.

- “Os fins justificam os meios.”

Contratualismo: Hobbes, Locke e Rousseau

FilósofoNatureza humanaObjetivo do contrato  Tipo de Estado
HobbesEgoísta, medo, guerra de
todos contra todos
Segurança e paz   Absolutista
Lockelivre, mas insegura  devido
às paixões e interesses
Proteger direitos naturais
(vida, liberdade, propriedade)
   Liberal
RousseauBom, mas corrompido
pela sociedade
Garantir liberdade e
igualdade pela vontade geral
   Democrático


Montesquieu

   _ Separação dos três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário

   _ Base da democracia moderna.


Adam Smith: questão com Paul Collier citando Adam Smith para discutir a motivação das condutas no capitalismo.


Hobbes

Poder soberano - Leviathan


Foucault

Poder Disciplinar
Biopolítica


2. Moral e Ética

  • Ética: reflexão racional sobre o agir humano.

  • Moral: conjunto de costumes e normas de uma sociedade.

Modelos éticos

    

Aristóteles: ética da virtude e da felicidade (eudaimonia)o meio-termo.

    
Epicuro:
prazer moderado e sábio.

    
Estoicos:
tranquilidade da alma, aceitação do destino.


Kant:
imperativo categórico → aja apenas segundo regras que possam valer universalmente; nunca trate o outro como meio.

Utilitarismo (Bentham, Mill):
melhor ação é a que gera o máximo de felicidade para o maior número de pessoas.

Bentham: punição e felicidade (questão 2025)


Ética aplicada a questões atuais: pensar como valores e princípios éticos orientam ações em temas contemporâneos.

  • Exemplos: ética ambiental (sustentabilidade), bioética (ética em pesquisas e saúde), tecnologia e redes sociais (privacidade, inteligência artificial e impacto social).


3. Pré-socráticos (Naturalistas ou Filósofos da Physis)

  • Substituem o mito pelo lógos (razão).

  • Procuram o arché, princípio de tudo.

  • Exemplos:

    • Tales: água

    • Heráclito: fogo, tudo flui

    • Parmênides: o ser é imutável

    • Demócrito: átomos

    • Pitágoras: número, harmonia e cosmos

    • Heráclito e Parmênides: contraste entre fluxo (panta rhei) e imutabilidade do ser.


4. Filosofia Antiga – Período Clássico


Sofistas x Sócrates
  • Sofistas: relativismo, retórica, cobram pelo ensino.

  • Sócrates: busca da verdade pelo diálogo; método maiêutico.

  • ironia (só sei que nada sei), dialética na forma de perguntas curtas, parto das ideias

Platão

  • Teoria das Ideias: mundo sensível (aparência) x mundo inteligível (verdade).

  • Mito da Caverna → libertação pela razão.

  • "A República"

Aristóteles

  • Ética da virtude → felicidade como prática do bem.

  • Política → o homem é um “animal político”.


Filosofias helenísticas

Começa com a morte de Alexandre, o Grande (323 a.C.) e se estende até cerca do século até o ano 30 a.C. (conquista romana do Egito). ) centro cultural da filosofia se desloca de Atenas para cidades como Alexandria, Rodes e Pérgamo. O foco da filosofia muda: em vez de discutir o ser e o conhecimento como na era clássica (Sócrates, Platão, Aristóteles), os filósofos helenísticos buscam a sabedoria prática e a felicidade individual em um mundo político instável.


Epicurismo: busca da felicidade por meio do prazer moderado, da amizade e da ausência de perturbações (ataraxia) 

Estoicismo:  : defende a vida guiada pela razão, aceitando o destino com serenidade para alcançar a tranquilidade da alma.

Ceticismo: a verdade absoluta é inacessível; o sábio deve suspender o juízo (epoché) para alcançar a tranquilidade da alma (ataraxia).
  • Principais nomes: Pirro de Élis e Sexto Empírico.

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5. Filosofia Medieval

    • União entre fé e razão.

    • Santo Agostinho (Patrística): o mal não existe, mas é ausência de bem; 
      → O mal não é uma força positiva, mas a privação do bem causada pelo mau uso do livre arbítrio.

    • São Tomás de Aquino (Escolástica): fé e razão não se opõem; usa Aristóteles para provar racionalmente a existência de Deus.

    • Ockham: querela dos universais


6. Origens da Modernidade (Final do século XV, por volta de 1450–1500, e se consolida nos séculos XVI e XVII)

  • Renascimento → Antropocentrismo (homem no centro).

  • Humanismo renascentista: valorização do ser humano, da razão e da criatividade, rompendo com a visão puramente religiosa da Idade Média e inspirando artes, ciência e pensamento crítico.

  • Revolução científica (Copérnico, Galileu, Newton).

  • Quebra da visão teocêntrica.

Racionalismo x Empirismo

  • Racionalismo (Descartes): razão como fonte segura do conhecimento.

  • Empirismo: conhecimento vem da experiência sensível.

    • Locke: ideias vêm da experiência; mente = tábula rasa.

    • Hume: experiência gera hábito; causa e efeito são inferências do hábito.

    • Bacon: defende o método experimental para investigar a natureza. (método científico)


7. Descartes (1596 - 1650)

  • Parte da dúvida (dúvida metódica)

  • Cogito: “Penso, logo SOU" (primeira certeza, verdade)

  • Método cartesiano:

    1. Evidência: aceitar apenas ideias claras e distintas

    2. Análise: dividir problemas complexos em partes menores

    3. Síntese: ordenar o pensamento do simples ao complexo

    4. Enumeração (revisão): revisar sistematicamente todas as etapas para garantir que nada foi omitido;

  • Dualismo: corpo (matéria) x alma (pensamento).

  • Res Extensa x Res Cogito


8. Epistemologia (Teoria do Conhecimento)

  • Racionalismo: a razão produz o conhecimento seguro.

  • Empirismo: o conhecimento é obtido pela experiência sensível.

  • Hume: o conhecimento é hábito da experiência repetida.

  • Kant: síntese entre razão e experiência.

    • Conhecemos apenas os fenômenos, não a “coisa em si”.


9. Filosofia Contemporânea

  • Nietzsche: crítica à moral tradicional, conceito de “vontade de poder” e super-homem

  • Marx: alienação é a perda de controle do trabalhador sobre seu trabalho; ideologia serve para justificar e naturalizar a dominação na sociedade.
  • Heidegger (pontual em atualidades/existencialismo tecnológico): crítica à técnica moderna.

  • Escola de Frankfurt: crítica à indústria cultural → cultura transformada em mercadoria. Denuncia a alienação e padronização que enfraquecem a consciência crítica. (Adorno, Horkheimer, Marcuse)

  • Herbert Marcuse: Sociedade industrial.

  • Hannah Arendt: banalidade do mal → o mal nasce da falta de pensamento crítico.

  • Sartre (Existencialismo): “O homem está condenado à liberdade”; a existência vem antes da essência.

  • Rawls: justiça como equidade — princípios escolhidos por indivíduos livres e racionais sob um “véu da ignorância”, garantindo igualdade de direitos e oportunidades.

  • Chantal Mouffe: defende a democracia agonística, onde o conflito é natural e produtivo, garantindo pluralidade e participação política.

  • Foucault: o poder está presente em todas as relações sociais; ele produz saberes e controla os corpos por meio de instituições como escola, prisão e hospital.

  • Deleuze: pensamento como rizoma (sem centro, múltiplo).

  • Derrida: direito e justiça

  • Filosofia indígena: propõe a reconexão com a natureza e a ideia de que a humanidade é parte, não centro, da vida no planeta (Ailton Krenak, Davi Kopenawa).

  • Filosofia africana: valoriza a comunidade, a ancestralidade e o princípio do Ubuntu — “eu sou porque nós somos”.

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Estética

David Hume: eloquência

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TEMAS

Justiça e igualdade social: garantia de direitos iguais e oportunidades justas para todos, combatendo desigualdades e promovendo inclusão.

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* EXTRA

O CONTRATUALISMO de Hobbes, Locke e Rousseau busca explicar a origem do Estado por meio de um acordo (contrato social) entre os indivíduos para sair do "estado de natureza".  As principais diferenças estão nas visões sobre a natureza humana e o objetivo do contrato: 

Para Hobbes, a natureza humana é egoísta e o contrato visa garantir segurança e evitar a "guerra de todos contra todos" através de um poder absoluto; 

Para Locke, o contrato visa proteger os direitos naturais, especialmente a propriedade privada, que já existe no estado de natureza e é mais seguro que a posse, embora inseguro sem leis;     

Para Rousseau, a natureza humana é boa, mas a sociedade e a propriedade privada a corromperam, sendo o contrato necessário para garantir a liberdade e a igualdade através da "vontade geral". 

Thomas Hobbes

Estado de natureza: Uma guerra constante de todos contra todos, onde os homens são egoístas e movidos pelo medo. A famosa frase "o homem é o lobo do homem" resume essa visão. 

Contrato social: Os indivíduos renunciam à sua liberdade para um soberano absoluto (Estado) em troca de segurança e paz, para acabar com a violência. 

Objetivo: Garantir a vida e a segurança, acabando com o medo e a violência. 

John Locke

Estado de natureza: Os indivíduos são livres, mas a insegurança existe devido às paixões e interesses. A lei natural governa, e os direitos naturais existem, sendo a propriedade um dos mais importantes. 

Contrato social: Os indivíduos entram em acordo para criar um Estado que preserve seus direitos naturais e proteja a propriedade privada. 

Objetivo: Preservar os direitos naturais e a propriedade privada que já existem no estado de natureza. 

Jean-Jacques Rousseau

Estado de natureza: O homem é bom, solitário e vive em harmonia com a natureza, sem maldade nem propriedade privada. 

Contrato social: A propriedade privada surge, gera desigualdade e corrompe a bondade natural do homem. O contrato social deveria ter sido um acordo para garantir a liberdade e igualdade, mas na prática, apenas sancionou a desigualdade. 

Objetivo: Restabelecer a liberdade e a igualdade através de um novo contrato baseado na "vontade geral" de todos os cidadãos.