O texto "Teoria Tradicional e Teoria Crítica" é uma tentativa de Horkheimer de diagnosticar o seu tempo presente e verificar quais foram os impedimentos que impossibilitaram que o proletariado se reconhecesse como sujeito objeto-idêntico e que, portanto, o sistema capitalista e suas mazelas fossem superados. Na análise Horkheimer chega à conclusão que seria necessário não mais fazer a crítica ao sistema capitalista com um sistema que todos estavam exaustos de falarem, como um sistema opressor, explorador, e sim fazer uma crítica ao sistema ideológico que lhe dá sustentação. Chegamos, portanto, a teoria tradicional que segundo Horkheimer é o alicerce ideológico do capitalismo. Percebe-se uma mudança de paradigma em relação à Lukács, ou seja, que não caberia mais partir para uma práxis revolucionária, mas sim para uma teoria que fosse crítica da sociedade. Uma teoria que fosse em si mesma prática, capaz de transformar a realidade.
(I) Razão Instrumental:
Ela é considerada incapaz de fundamentar ou propor em discussão os objetivos ou finalidades com que os homens orientam suas próprias vidas, ela se ocupa apenas com a racionalidade dos meios e não dos fins. A razão é instrumental porque só pode identificar, construir e aperfeiçoar os instrumentos ou meios adequados para alcançar fins estabelecidos e controlados pelo “sistema” (sociedade administrada) a totalidade tendo em vista a anulação a destruição do indivíduo.
(II) Razão vital:
É a razão que se preocupa com o mundo dos homens e com a realização plena do conceito de homem, é uma razão crítica que é capaz de orientar e propor os fins propriamente humanos. A razão substantiva é crítica em si mesmo, só ela é capaz de transformar a realidade sem cair em ideologias ou práticas cegas.
Tese: "O pensamento crítico é motivado pela tentativa de superar realmente a tensão, de eliminar a oposição entre a consciência dos objetivos, espontaneidade e racionalidade, inerentes ao indivíduo, de um lado, e as relações do processo de trabalho, básicas para a sociedade, de outro. O pensamento crítico contém um conceito de homem que contraria a si enquanto não ocorrer esta identidade. Se é próprio do homem que seu agir seja determinado pela razão, a práxis social dada, que dá forma ao modo de ser (Dasein), é desumana, e essa desumanidade repercute sobre tudo o que ocorre na sociedade. Sempre permanecerá algo exterior à atividade intelectual e material, a saber, a natureza como uma sinopse de fatos ainda não dominados, com os quais a sociedade se ocupa. Mas neste algo exterior incluem-se também as relações constituídas unicamente pelos próprios homens, isto é, seu relacionamento no trabalho e o desenrolar de sua própria história, como um prolongamento da natureza. Essa exterioridade não é, contudo, uma categoria suprahistórica ou eterna – isso também não seria a natureza no sentido assinalado aqui –, mas sim o sinal de uma impotência lamentável e aceitá-la seria anti-humano e anti-racional.” (p.140)"
Horkheimer está descrevendo o que caracteriza o pensamento crítico e por que ele é diferente do pensamento conformista ou “tradicional”.
1. Há uma tensão fundamental na sociedade moderna
De um lado: a racionalidade, a consciência dos objetivos, a espontaneidade; todas características do indivíduo humano.
Do outro:
as relações sociais de trabalho, o modo como a sociedade organiza a produção, que frequentemente não seguem a racionalidade do indivíduo, mas a da dominação, da alienação e do controle.
* O indivíduo tende a ser racional, mas o sistema de trabalho o impede de agir racionalmente.
2. O pensamento crítico nasce da tentativa de superar essa tensão
Enquanto essa oposição existir, o ser humano não coincide consigo mesmo: ele possui uma natureza racional, mas vive numa sociedade que não permite que essa racionalidade se realize. Por isso Horkheimer diz: "O pensamento crítico contém um conceito de homem que contraria a si enquanto não ocorrer esta identidade." Ou seja: o conceito de “humano racional” ainda não se realizou historicamente.
3. A práxis social existente é desumana
Horkheimer afirma que:
se o agir humano deveria ser determinado pela razão, e se a sociedade não permite isso, então a sociedade é desumana. Essa desumanidade contamina tudo: cultura, economia, política, relações pessoais.
4. Sempre existe algo exterior à razão: a natureza
Mas “natureza” aqui significa: os fatos ainda não dominados, aquilo que a sociedade ainda não controla plenamente. E Horkheimer acrescenta algo muito importante:
5. As próprias relações sociais também viraram “natureza”
Isto é: o modo como os homens trabalham, como produzem, como organizam a história, apesar de serem criações humanas, aparecem como se fossem forças naturais, inquestionáveis, dadas.
Exemplo contemporâneo:
“o mercado funciona assim”, “não há alternativa”, “a tecnologia exige isso”, etc.
* As relações humanas se tornam coisas, e por isso parecem exteriores e inevitáveis.
6. Essa exterioridade não é eterna
Nada disso é natural em sentido absoluto. É apenas expressão da: “impotência lamentável” dos seres humanos diante de suas próprias criações sociais. Aceitar essa impotência seria: anti-humano e anti-racional
Porque equivaleria a renunciar à capacidade humana de transformar a sociedade segundo a razão.
+ Em síntese,
Horkheimer está dizendo que:
O ser humano é racional por natureza.
Mas vive numa sociedade que não permite que sua racionalidade se realize.
O pensamento crítico existe para superar essa contradição, transformando as relações sociais.
Relações sociais que parecem naturais ou inevitáveis (como formas de trabalho, hierarquias, modos de produção) não são naturais; são resultado da história e podem ser transformadas.
Aceitar essas relações como “naturais” é negar o que há de humano e racional em nós.
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Horkheimer, Teoria tradicional e teoria crítica
Referência: HORKHEIMER, Max. Teoria Tradicional e Teoria Crítica. In: ________. Os Pensadores. v.
XLVIII. São Paulo: Victor Civita, 1975, pp. 125-169.
https://grupocriticaedialetica.wordpress.com/wp-content/uploads/2013/05/horkheimer-tttc1.pdf
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