terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Análise Sincrônica e Diacrônica

 

  • Análise Sincrônica: Examina um sistema, como uma língua ou uma sociedade, em um ponto específico no tempo, focando-se em sua estrutura e funcionamento nesse momento particular. É um estudo "estático" ou transversal.
  • Análise Diacrônica (Histórica): Examina a evolução de um sistema ao longo do tempo, focando nas mudanças, desenvolvimentos e transformações históricas. É um estudo "dinâmico" ou longitudinal. Portanto:
  1. A análise que é sincrônica é a do ponto de vista estrutural. Ela foca em como todos os elementos da estrutura se relacionam em um dado momento.
  2. A análise do ponto de vista histórico é, por definição, diacrônica, pois estuda a mudança e o desenvolvimento através do tempo. 
Em resumo, a análise estrutural é sincrônica, enquanto a análise histórica é diacrônica.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Papai noel existe?

1) Quem acredita em Papai Noel? Por quê?


2) Lévi-Strauss

  • Cidade da França queimou Papai Noel.
  • Antropólogo pergunta:
  • Por que acreditamos?
  • Por que ele volta todo ano?
  • Por que isso importa para a sociedade?


3) Observações

a) Infância x Vida adulta

  • Crianças acreditam

  • Adultos “sabem a verdade”

  • Ritual de passagem

b) Ritual dos presentes

  • Dar/receber todo ano

  • Aproxima as pessoas

  • Mesmo sem acreditar, participamos

c) Valores

  • Bondade

  • Generosidade

  • Comunidade


4) Conclusões

Existe?

Papai Noel existe como história.

Por que acreditamos?

  • Precisamos de histórias e símbolos

  • Histórias → ajudam a entender quem somos

Por que volta todo ano?

  • Sociedades modernas ainda precisam de mitos

  • Mitos envolvem rituais:
    Passagem (infância → vida adulta)
    Dádiva (dar e receber presentes)
    Reforço de valores (bondade, generosidade)
    Reforço da comunidade (ceia, encontro familiar)

Referência

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Essência e Existência no Debate Medieval

O par essência / existência é um dos temas centrais da filosofia medieval, especialmente a partir da recepção de Aristóteles e do pensamento neoplatônico. Ele estrutura debates sobre:

- o que as coisas são (essência),

- o fato de que elas são (existência).

Embora já apareça em Aristóteles, esse debate ganha forma sistemática apenas na Idade Média, sobretudo em autores como Avicena, Tomás de Aquino e Duns Scotus.


1. Definições básicas

Essência (quididade, “o que é”)

É aquilo que define um ente como sendo o que ele é.

Ex: A essência de um triângulo é ser figura de três lados.


Existência (esse, “que é”)

É o ato pelo qual um ente está realmente sendo no mundo.

Ex: Saber o que é um triângulo não faz com que um triângulo exista concretamente.

Entes criados (como nós) têm essência e existência como princípios distintos.


2. Avicena (Ibn Sina) – A distinção real entre essência e existência

Avicena é um dos maiores responsáveis pela formulação clara da distinção.

Para ele:

Toda essência é concebível independentemente de ela existir ou não.

Você pode entender o que é um cavalo mesmo que nenhum cavalo exista.


Portanto, essência e existência são realmente distintas nos entes criados.

A essência não garante a existência.

Deus é o único ente cuja essência implica existência (necessário por si).

Essa formulação influenciará enormemente o pensamento cristão posterior.

3. Tomás de Aquino – A existência como ato do ser (actus essendi)


Tomás aceita a distinção aviceniana, mas lhe dá uma fundamentação metafísica mais radical.


Para ele:

- A existência é o ato mais profundo que atualiza a essência.

É aquilo que faz a essência “sair do possível” e estar no real.


- Nos entes criados, essência e existência são realmente distintas.

A essência não contém a existência. Um ser humano pode ser entendido sem que necessariamente exista.


- Em Deus, essência = existência.


Ele é ipsum esse subsistens, o próprio Ser subsistente.

Por isso Deus é necessário, simples e não composto.

Essa tese é um dos pilares da metafísica tomista.


4. Duns Scotus – A distinção formal

Scotus critica algumas conclusões de Tomás:

Para ele, se essência e existência fossem realmente distintas em cada ente, a unidade do indivíduo seria ameaçada.

Ele propõe uma solução intermediária:

>  Distinção formal (nem puramente real, nem meramente conceitual).

A essência e a existência são distinguíveis para o intelecto, mas não são duas “coisas” separadas no real.

Scotus busca salvar tanto a unidade do ente quanto a inteligibilidade das distinções.


5. Guilherme de Ockham – A crítica nominalista

Ockham radicaliza:

Para ele, essência e existência não são duas realidades distintas.

A distinção é apenas conceitual: um modo de falar.

O que existe é sempre o indivíduo concreto.

“Essência” é apenas um conceito que a mente forma ao observar semelhanças entre indivíduos.

Assim, rejeita universalismos fortes e reforça a virada empirista na filosofia.


6. O problema de fundo: por que a distinção importa?

As discussões medievais sobre essência e existência estão ligadas a temas maiores:


* Criação

Como explicar que os entes não existem por si mesmos?

Tomás: porque sua essência não contém sua existência; eles recebem o ser. 

Já Deus não é criado por nenhum outro ente. Em Deus essência e existente coexistem.


* Contingência e necessidade

Por que nós somos contingentes e Deus é necessário?

Avicena e Tomás: porque apenas em Deus essência e existência coincidem.


* Conhecimento e individuação

Scotus e Ockham levantam a questão: como conhecemos o que algo é?

Isso exige saber que tipo de distinção há entre o abstrato e o concreto.


* Problema dos universais

Toda a discussão medieval sobre universais está conectada à distinção entre o que algo é e o fato de existir.


7. Linha do tempo simplificada


Avicena (séc. XI) Distinção real entre essência e existência; só Deus tem essência que implica existência.

Tomás de Aquino (séc. XIII) Distinção real + existência como ato do ser; Deus = ser subsistente.

Duns Scotus (séc. XIII–XIV) Distinção formal; crítica a algumas consequências tomistas.

Ockham (séc. XIV) Distinção apenas conceitual; nominalismo.


8. Síntese


Na Idade Média, essência é “o que a coisa é”; existência é “o fato de que ela existe”.

Avicena e Tomás defendem que nos entes criados as duas coisas são realmente distintas.

Deus é o único para quem essência e existência são idênticas.

Scotus propõe uma distinção intermediária (formal).

Ockham diz que a distinção é apenas conceitual: só existem indivíduos.

O debate estrutura toda a metafísica medieval e sua relação com teologia, conhecimento e linguagem.

A essência da verdade – Martin Heidegger

 

1. O ponto de partida: por que perguntar pela essência da verdade?

Heidegger inicia perguntando: o que é verdade?
A resposta tradicional (de Aristóteles a quase toda a filosofia ocidental) é:

Verdade = adequação do pensamento ao objeto (correspondência).

Ou seja: um juízo é verdadeiro quando corresponde ao fato.
Heidegger não nega totalmente essa definição, mas quer perguntar algo mais profundo:

De onde vem a possibilidade dessa correspondência?
O que precisa existir para que algo possa “corresponder” a algo?

Essa investigação o leva a sair da teoria do conhecimento e entrar na ontologia (a questão do ser).


2. A correspondência depende de algo mais profundo: o desvelamento

    Heidegger afirma que só podemos dizer que um juízo corresponde a um fato porque o ente já está, de alguma forma, aberto para nós.
Ele chama essa abertura de:

ἀλήθεια (aletheia) = desvelamento / não-ocultamento

A verdade, em seu sentido originário, não é primeiro um acerto entre mente e mundo.
É o fato de que o mundo se mostra, se deixa ver.

- Há verdade porque algo já está desocultado.
- Só existe correspondência porque primeiro existe abertura ao ser.


3. Quem realiza esse desvelamento? O Dasein

O ser humano, para Heidegger, não é um sujeito que contempla um mundo externo; é um ser lançado já aberto ao mundo.

O nome disso é:

Dasein = ser-aí

O Dasein é aquele que:

  • já está no mundo,

  • já se relaciona com os entes,

  • já compreende, mesmo implicitamente, o ser das coisas.

Por isso o Dasein é o "lugar" em que a verdade acontece como desvelamento.


4. Mas o desvelamento inclui ocultamento

Esse é um dos pontos mais difíceis – e centrais – do texto.

Para Heidegger, toda abertura do ser vem sempre junto com um certo encobrimento.

Exemplo simples:

  • para ver um objeto sob uma determinada perspectiva, outras perspectivas ficam ocultas.

Assim:

A essência da verdade é ao mesmo tempo desvelamento e ocultamento.

Ou seja, nunca temos o ser "todo" disponível.
A verdade originária é ambivalente: ao mostrar, ela também esconde.


5. Liberdade como condição da verdade

Outro ponto fundamental do texto é que a essência da verdade está ligada à liberdade — mas não no sentido moral ou político.

Liberdade, para Heidegger, significa:

Ser-livre-para o desvelamento do ente.

Liberdade = deixar-ser o ente como ele é.

Isso quer dizer:

  • não forçar o mundo a se adequar aos nossos esquemas prévios,

  • não reduzir o ente a categorias rígidas,

  • permitir que o ser se manifeste.

Portanto:

A essência da verdade está fundada na liberdade.


6. Desvio e fechamento: quando a verdade se perde

Heidegger afirma que o ser humano pode perder essa abertura original.

Isso acontece quando:

  • nos prendemos a opiniões prontas,

  • nos submetemos ao impessoal (das Man),

  • deixamos de pensar e questionar.

Esse “fechamento” é o que ele chama de:

não-verdade (Unwahrheit)

Não é falsidade.
É um estado existencial de não abertura, uma fuga do desvelamento.


7. O texto culmina num convite ético-existencial: assumir a abertura

Heidegger não está apenas definindo “verdade”; ele está pedindo que assumamos uma postura:

  • de abertura,

  • de escuta do ser,

  • de questionamento,

  • de liberdade para deixar o ente se mostrar.

A essência da verdade, portanto, é:

-> A abertura do ser humano ao ser (desvelamento)
-> fundada na liberdade
_> e sempre acompanhada por ocultamento.


Síntese

  1. A definição comum de verdade (correspondência) depende de algo mais fundamental.

  2. Esse algo mais fundamental é o desvelamento (aletheia): o mundo se mostra.

  3. O ser humano (Dasein) é o lugar onde esse desvelamento ocorre.

  4. Toda revelação inclui ocultação; a verdade é essencialmente ambígua.

  5. A verdade funda-se na liberdade entendida como deixar-ser.

  6. A não-verdade é um fechamento existencial à abertura.

  7. Heidegger nos convida a uma postura de abertura ao ser.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Comentário sobre "Teoria Tradicional e Teoria Crítica" (1937) de Horkheimer

O texto "Teoria Tradicional e Teoria Crítica" é uma tentativa de Horkheimer de diagnosticar o seu tempo presente e verificar quais foram os impedimentos que impossibilitaram que o proletariado se reconhecesse como sujeito objeto-idêntico e que, portanto, o sistema capitalista e suas mazelas fossem superados. Na análise Horkheimer chega à conclusão que seria necessário não mais fazer a crítica ao sistema capitalista com um sistema que todos estavam exaustos de falarem, como um sistema opressor, explorador, e sim fazer uma crítica ao sistema ideológico que lhe dá sustentação. Chegamos, portanto, a teoria tradicional que segundo Horkheimer é o alicerce ideológico do capitalismo. Percebe-se uma mudança de paradigma em relação à Lukács, ou seja, que não caberia mais partir para uma práxis revolucionária, mas sim para uma teoria que fosse crítica da sociedade. Uma teoria que fosse em si mesma prática, capaz de transformar a realidade.

(I) Razão Instrumental:

Ela é considerada incapaz de fundamentar ou propor em discussão os objetivos ou finalidades com que os homens orientam suas próprias vidas, ela se ocupa apenas com a racionalidade dos meios e não dos fins. A razão é instrumental porque só pode identificar, construir e aperfeiçoar os instrumentos ou meios adequados para alcançar fins estabelecidos e controlados pelo “sistema” (sociedade administrada) a totalidade tendo em vista a anulação a destruição do indivíduo.

(II) Razão vital:

É a razão que se preocupa com o mundo dos homens e com a realização plena do conceito de homem, é uma razão crítica que é capaz de orientar e propor os fins propriamente humanos. A razão substantiva é crítica em si mesmo, só ela é capaz de transformar a realidade sem cair em ideologias ou práticas cegas.


Tese: "O pensamento crítico é motivado pela tentativa de superar realmente a tensão, de eliminar a oposição entre a consciência dos objetivos, espontaneidade e racionalidade, inerentes ao indivíduo, de um lado, e as relações do processo de trabalho, básicas para a sociedade, de outro. O pensamento crítico contém um conceito de homem que contraria a si enquanto não ocorrer esta identidade. Se é próprio do homem que seu agir seja determinado pela razão, a práxis social dada, que dá forma ao modo de ser (Dasein), é desumana, e essa desumanidade repercute sobre tudo o que ocorre na sociedade. Sempre permanecerá algo exterior à atividade intelectual e material, a saber, a natureza como uma sinopse de fatos ainda não dominados, com os quais a sociedade se ocupa. Mas neste algo exterior incluem-se também as relações constituídas unicamente pelos próprios homens, isto é, seu relacionamento no trabalho e o desenrolar de sua própria história, como um prolongamento da natureza. Essa exterioridade não é, contudo, uma categoria suprahistórica ou eterna – isso também não seria a natureza no sentido assinalado aqui –, mas sim o sinal de uma impotência lamentável e aceitá-la seria anti-humano e anti-racional.” (p.140)"

Horkheimer está descrevendo o que caracteriza o pensamento crítico e por que ele é diferente do pensamento conformista ou “tradicional”.

1. Há uma tensão fundamental na sociedade moderna

De um lado: a racionalidade, a consciência dos objetivos, a espontaneidade;  todas características do indivíduo humano.

Do outro:

as relações sociais de trabalho, o modo como a sociedade organiza a produção, que frequentemente não seguem a racionalidade do indivíduo, mas a da dominação, da alienação e do controle.

* O indivíduo tende a ser racional, mas o sistema de trabalho o impede de agir racionalmente.

2. O pensamento crítico nasce da tentativa de superar essa tensão

Enquanto essa oposição existir, o ser humano não coincide consigo mesmo: ele possui uma natureza racional, mas vive numa sociedade que não permite que essa racionalidade se realize. Por isso Horkheimer diz: "O pensamento crítico contém um conceito de homem que contraria a si enquanto não ocorrer esta identidade." Ou seja: o conceito de “humano racional” ainda não se realizou historicamente.

3. A práxis social existente é desumana

Horkheimer afirma que:
se o agir humano deveria ser determinado pela razão, e se a sociedade não permite isso, então a sociedade é desumana. Essa desumanidade contamina tudo: cultura, economia, política, relações pessoais.

4. Sempre existe algo exterior à razão: a natureza

Mas “natureza” aqui significa: os fatos ainda não dominados, aquilo que a sociedade ainda não controla plenamente. E Horkheimer acrescenta algo muito importante:

5. As próprias relações sociais também viraram “natureza”

Isto é: o modo como os homens trabalham, como produzem, como organizam a história, apesar de serem criações humanas, aparecem como se fossem forças naturais, inquestionáveis, dadas.

Exemplo contemporâneo:
“o mercado funciona assim”, “não há alternativa”, “a tecnologia exige isso”, etc.

* As relações humanas se tornam coisas, e por isso parecem exteriores e inevitáveis.

6. Essa exterioridade não é eterna

Nada disso é natural em sentido absoluto. É apenas expressão da: “impotência lamentável” dos seres humanos diante de suas próprias criações sociais. Aceitar essa impotência seria: anti-humano e anti-racional

Porque equivaleria a renunciar à capacidade humana de transformar a sociedade segundo a razão.

+ Em síntese,

Horkheimer está dizendo que:

O ser humano é racional por natureza.
Mas vive numa sociedade que não permite que sua racionalidade se realize.
O pensamento crítico existe para superar essa contradição, transformando as relações sociais.
Relações sociais que parecem naturais ou inevitáveis (como formas de trabalho, hierarquias, modos de produção) não são naturais; são resultado da história e podem ser transformadas.
Aceitar essas relações como “naturais” é negar o que há de humano e racional em nós.

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Horkheimer, Teoria tradicional e teoria crítica 

Referência: HORKHEIMER, Max. Teoria Tradicional e Teoria Crítica. In: ________. Os Pensadores. v. XLVIII. São Paulo: Victor Civita, 1975, pp. 125-169.

https://grupocriticaedialetica.wordpress.com/wp-content/uploads/2013/05/horkheimer-tttc1.pdf

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Manuscritos econômico-filosóficos de Karl Marx (1844)

1. O que são os Manuscritos?

    São cadernos de estudo escritos por Marx em Paris, em 1844, durante sua fase de formação filosófica e econômica. Não foram publicados em vida.

    Mostram Marx ainda dialogando intensamente com Hegel e Feuerbach, e ao mesmo tempo estudando a economia política inglesa (Smith, Ricardo, Stuart Mill).

Eles são fundamentais porque revelam:

  •     a primeira formulação da teoria da alienação;
  •     a concepção do trabalho como atividade vital humana;
  •     o início da crítica estrutural ao capitalismo;
  •     o esboço filosófico do conceito de ser genérico (Gattungswesen).


2. Três eixos

(1) Crítica à economia política

Marx estuda os economistas clássicos e conclui que:

  • A economia burguesa trata o trabalhador como mercadoria.

  • A produção de riqueza envolve, simultaneamente, a produção de pobreza (empobrecimento relativo e, em certos casos, absoluto).

  • O trabalho, que deveria ser uma atividade humana livre e criativa, torna-se trabalho alienado.

  • No capitalismo, o trabalhador não controla:

    - o produto do trabalho,

    - o processo de trabalho,

    - o sentido ou finalidade do trabalho,

    - nem suas relações com os demais trabalhadores.

(2) O conceito de trabalho alienado

É o centro filosófico dos Manuscritos.

Marx identifica quatro dimensões da alienação:

  1. Do produto – o trabalhador cria algo que não lhe pertence.

  2. Da atividade – o trabalho se torna externo, forçado, reduzido a meio de sobrevivência.

  3. Da essência humana – a atividade vital deixa de ser livre e criadora; o ser humano se reduz a instrumento.

  4. Do outro ser humano – as relações se reduzem ao mercado: competição, interesse, exploração.

    Alienar significa separar o trabalhador de algo que deveria pertencer a ele como ser humano: sua criatividade, seu tempo, sua relação com a natureza e com os outros.

(3) O ser genérico (Gattungswesen)

Marx formula uma pergunta filosófica básica: O que é o ser humano?

A resposta, nos Manuscritos, é antropológica, social e histórica:

  • O ser humano não é definido por uma alma nem por uma razão abstrata.

  • Ele se define pela capacidade de produzir sua existência, transformar a natureza conscientemente e viver socialmente.

Por isso, Marx diz que o ser humano é um ser genérico (Gattungswesen).

Ser genérico significa:

(a) capacidade de projetar, criar, imaginar — ultrapassar o imediato;
(b) capacidade de se relacionar consigo e com os outros de forma consciente e mediada pelo trabalho;
(c) uma existência essencialmente social, nunca isolada;
(d) uma essência construída historicamente, não natural ou fixa.

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(4)  O trabalho


O trabalho é, portanto:

- expressão da essência humana (Wesen des Menschen)
- mediação fundamental entre homem e natureza;
- atividade livre, criadora e consciente (em potencial).

* A alienação é justamente a destruição da possibilidade de efetuação da essência humana.


5. Hegel e Feuerbach

De Hegel, Marx herda a ideia de que a realidade é histórica, dinâmica e contraditória.   Mas critica Hegel por seu idealismo. Para Marx, o sujeito real não é o Espírito, mas o ser humano concreto em sua vida material.

De Feuerbach, Marx herda o materialismo humanista: a essência humana é social, não espiritual. Mas substitui o “materialismo contemplativo” por um materialismo histórico e prático.

Feuerbach observa a alienação na religião; Marx desloca a crítica para a produção material, onde a alienação se origina.


6. Jovem Marx → Marx maduro

Os Manuscritos mostram o processo de metamorfose intelectual:

Marx jovem:

  • crítica humanista do capitalismo;

  • linguagem de essência, natureza humana, ser genérico.

Marx maduro (O Capital):

  • crítica científica e estrutural do capitalismo;

  • categorias como valor, mais-valia, mercadoria, fetichismo*;

  • abandono da linguagem essencialista.


  * Marx não abandona a ideia de alienação; ele a reformula como fetichismo da mercadoria.


5. Questões 

    O que significa trabalhar para sobreviver, e não para se realizar?

    Trabalhar para sobreviver significa que a atividade laboral é reduzida a meio de subsistência,  não expressando sua individualidade nem suas capacidades criadoras.

    Trabalhar para se realizar é a atividade vital pela qual o ser humano objetiva a si mesmo, encontrando no produto a materialização de sua liberdade.    

 Como a alienação aparece hoje (no trabalho digital, plataformas,      automação)?

1. Produto alienado
O que produzimos vira propriedade das plataformas (posts, dados, conteúdo, avaliações).
Quem ganha mais é a empresa, não o trabalhador.

2. Trabalho controlado por algoritmos
Plataformas decidem rotas, horários, relevância, metas e visibilidade (Uber, iFood, Instagram).
A pessoa perde controle sobre sua própria atividade.

3. Trabalho vira sobrevivência, não realização
A lógica é cumprir tarefas para “bater meta”, conseguir corrida, manter engajamento ou avaliação — não criar, aprender ou se desenvolver.

4. Relações sociais viram números
Likes, entregas por hora, notas de usuários, métricas de performance.
As pessoas aparecem como “clientes”, “seguidores” ou “concorrência”.

5. Automação aprofunda a dependência
Máquinas e IA fazem parte do trabalho, mas quem decide tudo é o sistema.
O trabalhador executa o que o algoritmo manda.

O trabalhador controla o que produz ou participa só de um fragmento?

No capitalismo, em geral não. O trabalhador participa apenas de um fragmento do processo produtivo.

Por quê?

O trabalho é dividido em tarefas pequenas e repetitivas.

Quem decide o que fazer, como fazer e para quê fazer é a empresa, não o trabalhador.

O produto final é resultado de uma cadeia enorme – o trabalhador vê apenas sua parte, não o todo.

Resultado (alienação):

O trabalhador não reconhece o produto como seu.

Não controla o processo, nem os objetivos.

A atividade perde sentido e vira apenas meio de sobrevivência.

  • O que Marx quer dizer exatamente com “essência humana”?

    Para Marx, a essência humana não é algo natural ou individual, mas social e histórica. Ela consiste no conjunto das relações sociais e na capacidade de produzir conscientemente a própria vida. O ser humano se define pelo trabalho criador e pela vida em comum, mas no capitalismo essa essência é alienada, porque o trabalho deixa de ser livre e se torna apenas um meio de sobrevivência e não de realização.
  • Em que o jovem Marx difere do Marx de O Capital?

O jovem Marx (dos Manuscritos de 1844) pensa o capitalismo a partir de categorias filosófico-humanistas, como alienação, essência humana e realização da espécie. Ele se preocupa com a experiência subjetiva do trabalhador, com a perda de sentido no trabalho e com a ideia de ser genérico. Sua crítica é mais ética e antropológica.

Já o Marx de O Capital faz uma análise científica, econômica e estrutural do modo de produção capitalista. Ele explica como o capitalismo funciona por meio de categorias como mais-valia, capital, mercadoria, força de trabalho, acumulação, e mostra as leis objetivas do sistema. A alienação reaparece como fetichismo da mercadoria, não mais como essência humana negada.

Em resumo:

O jovem Marx critica o capitalismo a partir do humanismo e da alienação; o Marx maduro analisa o capitalismo a partir da economia política, das relações de produção e das leis do capital.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Mark Fisher – Não Prestar Para Nada


Texto originalmente publicado no livro “Realismo Capitalista – É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?“

Sofro intermitentemente de depressão desde a adolescência. Alguns desses episódios foram altamente debilitantes — resultando em auto-mutilação, isolamento (onde passava meses confinado em meu próprio quarto, aventurando-me sair apenas para procurar emprego ou para comprar as quantidades mínimas de comida que consumia), e visitas frequentes a enfermarias psiquiátricas. Não diria que me recuperei inteiramente dessa condição, mas tenho satisfação de dizer que tanto a incidência quanto a gravidade dos episódios depressivos diminuíram muito nos últimos anos. Em parte, isso é consequência de mudanças na minha situação de vida, mas também tem a ver com uma distinta compreensão a que cheguei sobre minha depressão e suas causas. Exponho aqui minhas próprias experiências de angústia mental não porque ache que há algo especial ou único sobre elas, mas em apoio à tese de que muitas formas de depressão são melhor compreendidas — e combatidas — por meio de quadros analíticos impessoais e políticos, e não individuais e “psicológicos”.

Escrever sobre sua própria depressão é difícil. Faz parte da depressão uma voz “interior” desdenhosa que nos acusa de auto-indulgência — “você não está deprimido”, “você está apenas sentindo pena de si mesmo”, “dê um jeito nisso” —, passível de ser disparada ao tornarmos pública a condição. É claro que não se trata bem de uma voz “interior” , e sim da expressão internalizada de forças sociais reais, algumas das quais têm um interesse escuso em negar qualquer conexão entre depressão e política.

No meu caso, a depressão sempre esteve conectada à convicção de que eu literalmente não prestava para nada. Passei a maior parte de minha vida, até os trinta anos, acreditando que nunca conseguiria ter uma profissão. Aos vinte e poucos, alternava entre a pós-graduação, períodos de desemprego e empregos temporários. Em qualquer um desses casos, o sentimento era de que não me encaixava — na vida acadêmica, porque sentia que não era um pesquisador sério, apenas um diletante que tinha de alguma forma fraudado meu caminho até ali; no desemprego, porque não estava realmente desempregado como aqueles que buscavam trabalho honestamente, mas “vagabundo” se aproveitando do sistema; e em empregos temporários por sentir-me incompetente e que, em todo caso, não pertencia exatamente a trabalhos de escritório ou de fábrica, não porque fosse “bom demais” para eles, mas — muito pelo contrário — em virtude de excessivamente instruído e inútil, tirando o trabalho de alguém que precisava e merecia aquilo mais do que eu. Mesmo na enfermaria psiquiátrica, sentia como se não estivesse realmente deprimido — era como se estivesse apenas simulando a condição para evitar o trabalho, ou, na lógica infernalmente paradoxal da depressão, simulando-o para esconder o fato de que eu era incapaz de trabalhar, e que não havia lugar para mim na sociedade.

Quando finalmente consegui um emprego como professor em uma faculdade de Educação Complementar, fiquei exultante por um tempo — embora esta alegria, por sua própria natureza, mostrasse que ainda eu não havia me livrado do sentimento de inutilidade que logo desencadearia novos episódios depressivos. Como professor, faltava-me a calma confiança de quem nasceu para o papel. Em algum nível não muito profundo, eu evidentemente ainda não acreditava que fosse o tipo de pessoa que poderia fazer um trabalho como aquele.

Mas de onde vinha essa crença? A escola dominante de pensamento em psiquiatria localiza as origens de tais ‘crenças’ no mau funcionamento da química cerebral, que deve ser corrigido por produtos farmacêuticos; a psicanálise e demais formas de terapia por ela influenciadas são famosas por procurar as raízes da angústia mental no contexto familiar, enquanto a Terapia Cognitiva-Comportamental está menos interessada em localizar a fonte de crenças negativas do que simplesmente substituí-las por um conjunto de alternativas positivas. Não é que esses modelos sejam inteiramente falsos, é que eles deixam escapar — e necessariamente têm que deixar escapar — a causa mais provável de tais sentimentos de inferioridade: o poder social. A forma de poder social que mais teve efeito sobre mim foi o poder de classe, embora, naturalmente, o gênero, a raça e outras formas de opressão funcionem produzindo o mesmo sentimento de inferioridade ontológica, melhor expressado justamente no pensamento que articulei acima: que você não é o tipo de pessoa capaz de desempenhar papéis destinados ao grupo dominante.

A pedido de um dos leitores do meu livro “Realismo Capitalista”, comecei a investigar o trabalho de David Smail. Smail — um terapeuta, mas que tomou a questão do poder como central para sua prática — corroborou as hipóteses sobre a depressão nas quais eu havia esbarrado por acaso. Em seu livro crucial, “As Origens da Infelicidade”, Smail descreve como as marcas de classe são projetadas para serem indeléveis. Para aqueles que foram ensinados desde o nascimento a se verem como inferiores, a aquisição de qualificações ou renda raramente será suficiente para apagar — em suas próprias mentes ou na mente dos outros — o sentido primordial de inutilidade que os marca tão cedo na vida. Alguém que sai da esfera social a qual estaria “designado” a ocupar estará sempre sujeito ao perigo de ser dominado por sentimentos de vertigem, pânico e horror: “… isolado, separado, cercado de espaço hostil, você de repente se vê sem conexões, sem estabilidade, sem nada para mantê-lo firme ou no lugar; uma irrealidade vertiginosa e nauseante se apossa de você; você se vê ameaçado por uma completa perda de identidade, um sentimento de completa fraude; você não tem o direito de estar aqui, agora, habitando este corpo, vestido desta maneira; você é um nada, e ‘nada’ é, literalmente, o que você sente que está prestes a se tornar.”

Já há algum tempo, uma das táticas mais bem-sucedidas da classe dominante tem sido a da “responsabilização”. Cada membro individual da classe subordinada é encorajado a sentir que sua pobreza, falta de oportunidades, ou desemprego é culpa sua e somente sua. Os indivíduos culparão a si mesmos antes de culparem as estruturas sociais; estruturas que, em todo caso, eles foram induzidos a acreditar que de fato não existem (são apenas desculpas, invocadas pelos fracos). O que Smail chama de “voluntarismo mágico” — a crença de que está dentro do poder de cada indivíduo se tornar o que quer que seja — é a ideologia dominante e a religião não oficial da sociedade capitalista contemporânea, empurrada goela abaixo tanto pelos “experts” da TV e gurus dos negócios quanto pelos políticos. O voluntarismo mágico é ao mesmo tempo um efeito e uma causa do nível historicamente baixo da consciência de classe. É o outro lado da depressão — cuja convicção subjacente é a de que somos todos exclusivamente responsáveis ​​pela nossa própria miséria e, portanto, a merecemos. Um duplo imperativo particularmente cruel é imposto aos desempregados de longa duração no Reino Unido: uma população que, durante toda a sua vida, foi levada a acreditar que não prestava para nada é simultaneamente bombardeada pela injunção de que pode fazer tudo o que quiser fazer.

Devemos entender a submissão fatalista da população do Reino Unido à austeridade como consequência de uma depressão deliberadamente cultivada. Esta depressão manifesta-se na aceitação de que as coisas vão piorar (para todos, exceto para uma pequena elite), que temos sorte de ter um emprego que for (então não devemos esperar que os salários acompanhem a inflação), que não podemos nos dar o luxo de bancar serviços públicos providos coletivamente. A depressão coletiva é o resultado do projeto da classe dominante de ressubordinação. Há algum tempo, temos cada vez mais nos resignado à ideia de que não somos o tipo de pessoa que pode agir. Esta não é uma falha de vontade individual, da mesma forma que uma pessoa deprimida não pode simplesmente sair da depressão em um “estalar de dedos” ao “arregaçar as mangas”. A reconstrução da consciência de classe é, de fato, uma tarefa formidável, que não será alcançada com soluções prontas e fáceis. Mas, ao contrário do que nossa depressão coletiva nos diz, é uma tarefa que pode ser realizada: inventando novas formas de envolvimento político, revitalizando instituições que se tornaram decadentes, convertendo o descontentamento privatizado em raiva politizada. Tudo isso pode acontecer, e, quando acontecer, quem sabe o que será possível?

domingo, 9 de novembro de 2025

ENEM 2025 (comentários)

 - Perfil interdisciplinar no geral (exemplo questões de inglês com textos de filósofos).

- Ao longo da prova questões sobre povos indígenas, questões sobre cultura afro-brasileira (epistemologias do sul).

- Questões sobre problemas sociais como racismo, exploração do trabalho, crise ambiental.

- “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos". (Artigo 1: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade).

- 9 questões de filosofia

- Questões conteudistas

- Questões sobre todos os períodos da filosofia

- Maior parte das questões com temas do segundo ano (ética e filosofia política)

- Mas também questões do primeiro ano (Pré-socráticos, Platão e Aristóteles) e terceiro (estética, filosofia contemporânea).
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Quais conhecimentos precisávamos ter?


Filosofia Antiga -> Pré-socráticos -> Heráclito

Heráclito de Éfeso situa-se como filósofo pré-socrático, ou seja, um filósofo da natureza. Dessa forma, busca uma compreensão acerca da constituição e das transformações que regem o mundo natural, encontrando, no equilíbrio entre opostos e no movimento constante entre o ser e o seu devir, o elemento que rege a physis. Assim, a alternativa apresenta a síntese de sua perspectiva filosófica ao enfatizar que a dicotomia do cosmos (antagonismo entre contrários) seria a base da natureza.


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Filosofia Antiga e Política


Platão - "cidade ideal" 

A cidade ideal de Platão é governada por filósofos, que possuem conhecimento e buscam a justiça e o bem comum, contrastando com a cidade injusta, onde o poder é exercido pelos proprietários em busca de interesses privados. 

Ética e exercício do poder: A filosofia de Platão busca um governo justo, onde o poder (exercício do poder) deve ser baseado na sabedoria e na ética dos filósofos, que atingiram o conhecimento do Bem.

Distinção entre cidade justa e injusta: O texto define a cidade justa como aquela governada pela razão dos filósofos, enquanto a cidade injusta é dominada pelo interesse econômico privado.

A teoria de Platão: A estrutura proposta por Platão em sua obra "A República" é chamada de sofocracia, ou governo dos sábios, onde os filósofos devem ser os governantes por possuírem o conhecimento necessário para tal função.

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Aristóteles - "formas de governo"


Em seu pensamento político, Aristóteles defende que cada Estado escolha a forma de governo que lhe for mais adequada, contanto que haja uma preocupação com o bem comum e que o(s) governante(s) seja(m) virtuoso(s).


Aristóteles descreve 3 formas de governo puras (justas) e seus respectivos desvios (formas corrompidas), 


Forma justa: Monarquia (visa ao bem-estar comum).
Forma desviada: Tirania (visa apenas ao benefício do governante).


A Minoria (governo de poucos):
Forma justa: Aristocracia (governo dos melhores, visando ao bem comum).
Forma desviada: Oligarquia (governo dos ricos, visando ao benefício próprio).


Todos (governo de muitos):
Forma justa: Democracia (ou bem melhor: politeia na terminologia original de Aristóteles, que visava ao bem comum).
Forma desviada: Demagogia (ou democracia em sentido pejorativo, que visava apenas ao benefício da maioria pobre, em detrimento das outras classes).


* Portanto, as três formas de governo justas (ou puras) são a monarquia, a aristocracia e a democracia (o correto seria, na verdade, politeia).


Filosofia política e contemporânea

Michel Foucault

Poder Soberano: Leviathan. Deixar morrer, fazer morrer 

Biopoder: Poder Disciplinar e Biopolítica: Fazer viver, e deixar morrer

    Sobre o poder disciplinar, Foucault sublinha a natureza difusa e institucionalizada (escola, exército, hospital, fábricas) do poder disciplinar, em contraste com métodos mais antigos e espetaculares de punição (como o suplício e a penitência pública).

    O poder disciplinar é microfísico, capilar, relacional.


Ética e Moral

Ética: prática (exemplo: virtudes para alcançar a felicidade).
Moral. dever  (leis externo, imperativo categórico = lei interna)


Ou


Para Adam Smith os indivíduos não buscavam apenas seus interesses financeiros, mas eram pessoas moralmente motivadas. A base da moral era a empatia e o julgamento, instaurando uma distinção entre o que queremos fazer e o que sentimos que devemos fazer.

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Utilitarismo

Utilitarismo, teoria ética defendida por Bentham. No utilitarismo, a ação correta (o meio,) é aquela que produz o maior bem-estar ou felicidade geral (o fim). 

Ex.: A punição é justificada não por um dever moral absoluto ou um direito natural, mas pela sua utilidade em prevenir a dor social e promover o prazer e a felicidade coletiva.

Ex.: A morte de um X é justificada não por um dever moral absoluto ou um direito natural, mas pela sua utilidade em prevenir a morte de Y, Z e W e assim a dor social e prover, na medida do possível, o prazer e a felicidade coletiva.

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Altruísmo


O altruísmo é uma doutrina ética que enfatiza a preocupação desinteressada com o bem-estar de outras pessoas.

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Ética e filosofia contemporânea

Derrida
Distinção entre direito e justiça

Na obra "Força de Lei" de Jacques Derrida, explora a complexa e aporética relação entre o direito e a justiça. A ideia central é que o direito, enquanto conjunto de normas e regras calculáveis e aplicáveis, difere fundamentalmente da justiça, que é incalculável e inacessível por meio de regras predefinidas.

O Direito é Calculável: O direito opera com regras, cálculos e procedimentos que visam garantir a previsibilidade e a aplicação uniforme da lei. Ele é um "elemento do cálculo".

A Justiça é Incalculável: A justiça, em contrapartida, transcende qualquer cálculo ou regra. Ela exige uma decisão que vá além da simples aplicação da lei, considerando o incalculável, o singular de cada situação.

A Aporia (O Impasse): A relação entre os dois é aporética, ou seja, envolve uma contradição ou um impasse insolúvel. A justiça exige o direito (é justo que haja direito), mas ao mesmo tempo o desafia, pois a decisão justa não é garantida por nenhuma regra.

Experiências Aporéticas: Momentos de decisão verdadeira entre o justo e o injusto são "improváveis quanto necessários". Nesses instantes, a regra não oferece uma garantia, e o sujeito que decide precisa, de certa forma, reinventar a justiça no ato da decisão, assumindo um risco

Em síntese, Derrida argumenta que o direito busca fechar a questão da justiça por meio de regras, mas a verdadeira justiça permanece aberta, exigindo um salto ou uma decisão soberana que escapa à lógica do cálculo e da norma.


Para aprofundar:

Direito e justiça. https://revistacult.uol.com.br/home/a-forca-de-derrida-para-pensar-o-direito-e-a-possibilidade-da-justica/

Justiça e perdão: https://revistacult.uol.com.br/home/a-justica-e-o-perdao-em-jacques-derrida/



Uma questão sobre o ser e a conduta (utilizando recurso literário de Clarice Lispector)

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Filosofia contemporânea
Escola de Frankfurt

Herbert Marcuse - "A ideologia da sociedade Industrial"


A característica da sociedade industrial do século XX apresentada no texto é a alternativa “realidade unidimensional”, que se manifesta na falta de tensões no imaginário popular entre o que o mundo é e o que o mundo poderia ser. Tal escassez de mobilidade é operada por dois mecanismos principais: A estabilidade social gerada por garantias do estado de bem-estar social europeu e pela homogeneização dos objetivos e ideais de vida, na figura do consumo e no amortecimento da luta de classes. Nesse contexto, a conformidade social é garantida pela obsolescência do imaginário revolucionário, dando lugar a uma utopia individual, acomodada nos limites da democracia burguesa e na realização de sonhos pessoais.
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Bauman


"Sociedade líquida" é um conceito do sociólogo Zygmunt Bauman que descreve a sociedade contemporânea como fluida e volátil, em que os laços sociais, empregos e instituições se tornaram efêmeros e menos duradouros. Essa liquidez é caracterizada pela constante mudança e pela obsolescência, impactando desde relacionamentos amorosos até a carreira profissional

(...)

Zygmunt Bauman define a utopia como necessária para "reformar o mundo". Para que isso ocorra, é preciso "perceber o que está errado com o mundo, o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos." A função da utopia, portanto, é a de identificar as falhas do presente e, a partir delas, sugerir caminhos e modelos de sociedade diferentes para o futuro, ou seja, apontar alternativas possíveis para a transformação social.

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Estética


Hume - eloquência (retórica)

Sócrates/Platão aos Sofistas (mestres da retórica e da persuasão)

(...) 

Em "Uma Investigação sobre o Entendimento Humano" de David Hume, descreve a relação entre a retórica (ou eloquência), a credulidade do público e a subjugação da razão pelos afetos e imaginação. 

A dinâmica orador-público é circular: A facilidade com que as pessoas acreditam (credulidade) encoraja o orador a ser mais audacioso (descaramento), e essa audácia, por sua vez, cativa ainda mais a audiência.

A eloquência de alto nível apela para o emocional: Em vez de se basear na lógica ou na reflexão racional, a retórica eficaz "dirige-se inteiramente à imaginação e aos afetos" para "subjugar-lhes o entendimento". 

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QUESTÕES

Primeiro

Filosofia antiga -> pré-socráticos
Heráclito


TEXTO I
     Em conjunto: todo e não todo, unido e separado, em consonância e em dissonância. De todos um e de um todos. (Fragmento B10)

TEXTO II

Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, saciedade-fome. (Fragmento B67)

Pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

A característica do pensamento do filósofo Heráclito, registrada nos fragmentos mencionados, é a ênfase na:


A qualidade imperecível do mundo. (mundo está em constante mudança)

B degradação material da natureza. (transformação constante da natureza)

C imobilidade imanente do universo. (mundo está em constante mudança)

D distribuição dicotômica do cosmos.

E desordem incontornável das coisas. (há uma ordem na constante mudança)

Gabarito: D

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Ética


ENEM 2025 questão 54 da prova verde Adam Smith via o açougueiro e o padeiro não só como indivíduos buscando seus interesses financeiros, mas como pessoas moralmente motivadas dentro de uma sociedade. A base da moral era a empatia e o julgamento, instaurando uma distinção entre o que queremos fazer e o que sentimos que devemos fazer.

COLLIER, P. O futuro do capitalismo. Porto Alegre: LP&M, 2019.

O texto defende uma motivação capitalista para o campo dos negócios, na qual o lucro se mostra associado à

A) consolidação do poder político.
B) procura de satisfação subjetiva.
C) estruturação do monopólio comercial.
D) percepção de responsabilidade ética. 
E) conquista do reconhecimento público.

Gabarito: D

Esta alternativa está correta porque o texto argumenta que, para Adam Smith, a motivação dos agentes econômicos (como o açougueiro e o padeiro) vai além do lucro, incorporando uma base moral de “empatia e o julgamento” que gera um senso do que “devemos fazer”, ou seja, uma responsabilidade ética.

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Ética utilitarista, Utilitarismo

A missão dos governantes consiste em promover a felicidade da sociedade, punindo e recompensando. A parte da missão de governo que consiste em punir constitui mais particularmente o objeto da lei penal. A obrigatoriedade ou necessidade de punir uma ação é proporcional à medida que tal ação tende a perturbar a felicidade e à medida que a tendência do referido ato é perniciosa. A felicidade consiste naquilo que já vimos, ou seja, em desfrutar prazeres e em estar isento de dores.

BENTHAM, J. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação.

São Paulo: Abril Cultural, 1974 (adaptado).

Qual perspectiva de justiça emerge da relação, estabelecida no texto, entre punição e felicidade?

Alternativas

A Aplicação de meios para atingir um fim.

B Imposição de regras para estabelecer um dever.

C Sobreposição de princípios para fundamentar um direito.

D Criação de parâmetros para reconhecer uma prescrição.

E Elaboração de convenções para referendar um costume.

Gabarito: A


Utilitarismo: cálculo utilitário entre meios e fins, visando a situação de menor dor e maior felicidade ou menor infelicidade.

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Ética, Altruísmo


ENEM 2025 O que eu queria ter sido

Um nome para o que sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de “a protetora dos animais”. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. E eu sentia o drama social com tanta intensidade que vivia de coração perplexo diante das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas.

LISPECTOR, C. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2013.

A reflexão contida no texto faz referência aos pressupostos de uma doutrina ética representada pelo

A) estado eudaimônico.

 
B) referencial hedonista.

 
C) pensamento altruísta.

 
D) movimento antiespecista.

 
E) comportamento pragmático.

Gabarito  C) pensamento altruísta.

O texto de Clarice Lispector expressa um forte desejo de ser uma "lutadora" e uma "protetora". Ela descreve sua motivação como a de lutar "pelo bem dos outros" e de sentir-se "perplexa diante das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas."

Essa disposição de colocar o bem-estar e a defesa dos outros acima do próprio interesse ou destino é a definição do altruísmo. O altruísmo é uma doutrina ética que enfatiza a preocupação desinteressada com o bem-estar de outras pessoas.

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Derrida: distinção entre direito e justiça


0 direito não é justiça. 0 direito é o elemento do cálculo, é justo que haja um direito, mas a justiça 4 incalculável, ela exige que se calcule o incalculável; e as experiências aporéticas são experiências to improváveis quanto necessárias da justiça, isto 4, são momentos em que a decisão entre o justo e o injusto nunca é garantida por urna regra. 

DERRIDA, 3. Força de Lei. São Paulo: Martins Fontes, 2010 (adaptado)

De acordo com o texto, ainda que estejam em desconformidade com o ordenamento jurídico, são exemplos de ação justa:

Alternativas

A Casos de desobediência civil.
B Repressões do aparato estatal.
C Conflitos de natureza intercontinental.
D Manifestações do movimento sindical.
E Mobilizações de agremiações estudantis.


Gabarito: A

Ordenamento jurídico: direito
ação justa: justiça

O texto de Jacques Derrida aborda uma diferenciação entre o direito, entendido como ciência, e a justiça. Nem sempre, na visão do autor, essas concepções caminham na mesma direção e podem entrar em dissonância, pois basta recordar que o apartheid sul-africano e a escravidão eram legais do ponto de vista jurídico, embora estivessem assentados em perspectivas de injustiça ética e social. A desobediência civil constitui uma forma de contestação de normas legais construídas de maneira injusta, como a Marcha do Sal, liderada por Mahatma Gandhi.

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POLÍTICA

Platão: cidade ideal"

ENEM 2025 A cidade justa é governada pelos filósofos, administrada pelos cientistas, protegida pelos guerreiros e mantida pelos produtores. Cada classe cumprirá sua função para o bem da pólis, racionalmente dirigida pelos filósofos. Em contrapartida, a cidade injusta é aquela onde o governo está nas mãos dos proprietários − que não pensam no bem comum da pólis e lutarão por interesses econômicos particulares.

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000.

O texto apresenta a estrutura de governo da cidade ideal pensada por Platão, que postula uma indissociabilidade entre

Alternativas

A cognoscência e relação intersubjetiva.

B mitologia e teorias cosmogônicas.

C cidadania e primazia da retórica.

D moralidade e virtudes cardeais.

E ética e exercício de poder.


Gabarito: E

A indissociabilidade apontada pelo texto de Chauí na estrutura de governança da república platônica tem por base uma ética que prioriza o bem público sobre os interesses privados. Para Platão, a estabilidade social da república depende da consciência de seus integrantes e principalmente seus governantes sobre o benefício público que sua função proporciona. Isso se opõe à ideia de uma governança baseada em interesses particulares, que ignora uma divisão racional de méritos e deveres e, por isso, conduz a cidade a um modelo político corrupto, no qual a conveniência dos mais fortes prevalece sobre a ética.



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Aristóteles - "formas de governo"


QUESTÃO 55 ENEM 2025 - O corpo de cidadãos é o poder supremo dos Estados. A supremacia pode residir ou num homem, ou na minoria, ou em todos. Sempre que o Um, ou a Minoria, ou Todos governam, tendo em vista o bem-estar comum, essas constituições são justas; mas se procuram apenas o beneficio de uma das partes, seja ela o Um, a Minoria ou Todos, estabelece-se um desvio. 

ARISTÓTELES. Politica. São Paulo; Nova Cultural, 2000. 

No excerto encontra-se a base da teoria clássica das trés formas de governo representadas pela:

a tirania, oligarquia e república.
b burocracia, autarquia e império. 
c ditadura, autocracia e anarquia. 
d plutocracia, tecnocracia e demagogia. 
e monarquia, aristocracia e democracia.


Gabarito: E

Em seu pensamento político, Aristóteles defende que cada Estado escolha a forma de governo que lhe for mais adequada, contanto que haja uma preocupação com o bem comum e que o(s) governante(s) seja(m) virtuoso(s). Sendo assim, a teoria das três formas de governo de Aristóteles estabelece que o “governo de Um” que visa ao bem-estar comum é a monarquia. Caso este “governo de Um” esteja corrompido, ou seja, pense no bem apenas do governante, estabelece-se uma tirania. O “governo de Minoria” que visa ao bem-estar comum é a aristocracia. Caso fosse um “governo de Minoria” que pensasse apenas no bem daqueles que governam, seria uma oligarquia. Finalmente, um “governo de Todos” que pensa no bem comum é a república ou politeia. Caso esse “governo de Todos” vise ao bem apenas dos governantes, se trataria de uma demagogia. A única alternativa que apresenta três formas de governo virtuosas lista a monarquia, a aristocracia e a democracia.

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Filosofia contemporânea e Política


Michel Foucault

    
QUESTÃO 49  A “invenção” dessa nova anatomia politica não deve ser entendida corno uma descoberta súbita. Mas como urna multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que se recordam, que se repetem, ou se imitam, apoiam-se uns sobre os outros e esboçam aos poucos a fachada de um método geral. Encontramo-los em funcionamento nos colégios, muito cedo; mais tarde, nas escolas primárias, no espaço hospitalar e no organização militar 

Foucault, M. Vigiar e punir, Petrópolis; Vozes, 2011. 

O texto indica o seguinte aspecto da disciplina como ferramenta politica: 
a) Expansão dos técnicas de suplicio 
b) Judicialização dos relações de poder.  
c) Dissolução das distinções de nobreza. 
d) Capilarização dos práticas de controle. 
e) Espetacularizacão das medidas de penitência.

Gabarito: d) Capilarização dos práticas de controle. 

Justificativa:

O texto de Foucault descreve um processo em que as técnicas de disciplina e poder não surgem de uma só vez, mas através de "multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas" que se infiltram em várias instituições como "colégios, [...] escolas primárias, no espaço hospitalar e no organização militar".

Capilarização refere-se exatamente a essa disseminação difusa, sutil e abrangente das práticas de controle por toda a sociedade e suas instituições, como se fossem pequenos capilares sanguíneos, alcançando todos os pontos.

As outras opções não se alinham à descrição do autor, que foca na natureza difusa e institucionalizada do poder disciplinar, em contraste com métodos mais antigos e espetaculares de punição (como o suplício e a penitência pública).

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Marcuse


Independência de pensamento, autonomia e direito à oposição política estão perdendo sua função crítica básica numa sociedade que parece cada vez mais capaz de atender às necessidades dos indivíduos através da forma pela qual é organizada. Nas condições de um padrão de vida crescente, o não conformismo com o próprio sistema parece socialmente inútil, principalmente quando acarreta desvantagens econômicas e políticas tangíveis e ameaça o funcionamento suave do todo.

MARCUSE, H. Ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.

Qual é a característica da sociedade industrial do século XX apresentada no texto?

Alternativas

A Gestão integrada.

B Relativismo moral.

C Desobediência civil.

D Realidade unidimensional.

E Desenvolvimento tecnológico.

Gabarito: D

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Bauman

Para que a utopia nasça, é preciso duas condições. A primeira é a forte sensação de que o mundo não está funcionando adequadamente e deve ter seus fundamentos revistos para que se reajuste. A segunda condição é a existência de uma confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo, a crença de que nós, seres humanos, podemos fazê-lo, sendo capazes de perceber o que está errado com o mundo, o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos, e ter força e coragem para extirpá-los.

BAUMAN, Z. apud OLIVEIRA, D. Bauman: para que a utopia renasça, é preciso confiar no potencial humano. Revista Cult, jan. 2017.

De acordo com o autor, qual é a função da utopia no contexto das transformações sociais?

A) Habilitar memórias afetivas.

 
B) Apontar alternativas possíveis.

 
C) Legitimar experiências pretéritas.

 
D) Perpetuar paradigmas científicos.

 
E) Empreender soluções conclusivas.

Resposta: B) Apontar alternativas possíveis.

Zygmunt Bauman define a utopia como necessária para "reformar o mundo". Para que isso ocorra, é preciso "perceber o que está errado com o mundo, o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos." A função da utopia, portanto, é a de identificar as falhas do presente e, a partir delas, sugerir caminhos e modelos de sociedade diferentes para o futuro, ou seja, apontar alternativas possíveis para a transformação social.

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Epistemologia, estética

A credulidade dos ouvintes aumenta o descaramento do narrador, e o descaramento deste conquista-lhes a credulidade. A eloquência, quando levada a seu patamar mais alto, deixa pouco lugar à razão ou à reflexão, mas, dirigindo-se inteiramente à imaginação e aos afetos, cativa os ouvintes condescendentes e subjuga-lhes o entendimento.

HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. São Paulo: Edunesp, 2003.

No contexto do século XVIII, o autor propõe uma reflexão radical acerca da arte da eloquência restringindo-a ao

Alternativas

A sistema de crenças, conforme a proposta kantiana de objetividade do conhecimento.

B campo dos absolutos, semelhante ao entendimento medieval dos Universais.

C demônio da lógica, consoante a compreensão aristotélica nos Analíticos.

D paradigma da racionalidade, alinhado ao modelo cartesiano de método.

E âmbito da persuasão, análogo às críticas platônicas aos sofistas.

Gabarito: E


O fragmento apresentado, extraído da obra "Uma Investigação sobre o Entendimento Humano" de David Hume, descreve a relação entre a retórica (ou eloquência), a credulidade do público e a subjugação da razão pelos afetos e imaginação. 

O texto sugere que:

A dinâmica orador-público é circular: A facilidade com que as pessoas acreditam (credulidade) encoraja o orador a ser mais audacioso (descaramento), e essa audácia, por sua vez, cativa ainda mais a audiência.

A eloquência de alto nível apela para o emocional: Em vez de se basear na lógica ou na reflexão racional, a retórica eficaz "dirige-se inteiramente à imaginação e aos afetos" para "subjugar-lhes o entendimento".