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segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A concepção aristotélica da escravidão (1ST, 1INFO, 1REG1)



Alguns consideram que o poder senhorial não tem nenhum fundamento na natureza e pretendem que esta nos criou a todos livres, e a escravidão só foi introduzida pela lei do mais forte e é, por si mesma, injusta como um puro efeito da violência.

Existem dois tipos de instrumentos: uns inanimados, outros animados. Assim é que, para a navegação, o leme é o instrumento inanimado e o comandante, o instrumento animado. Em todas as artes, o trabalhador é uma espécie de instrumento. Chama-se "instrumento" o que realiza o efeito, e "propriedade doméstica" o que ele produz.

O tear, por exemplo, e o torno, além do exercício que nos proporciona seu uso, fornecem-nos ainda pano e camas; ao passo que o pano e a cama que eles nos produzem se limitam ao nosso simples uso.

O senhor não é senão o proprietário de seu escravo, mas não lhe pertence; o escravo, pelo contrário, não somente é destinado ao uso do senhor, como também dele é parte. Isto basta para dar uma ideia da escravidão e para fazer conhecer esta condição.

O homem que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a um outro, é “escravo por natureza”: é uma posse e um instrumento para agir separadamente e sob as ordens de seu senhor.

A Servidão Natural

Mas faz a natureza ou não de um homem um escravo? É justa e útil a escravidão ou é contra a natureza? É isto que devemos examinar agora. O fato e a experiência, tanto quanto a razão, nos conduzirão aqui ao conhecimento.

Não é apenas necessário, mas também vantajoso que haja mando por um lado e obediência por outro; e todos os seres, desde o primeiro instante do nascimento, são, por assim dizer, marcados pela natureza, uns para comandar, outros para obedecer.

Entre eles, há várias espécies de superiores ou de súditos, e o mando é tanto mais nobre quanto mais elevado é o próprio súdito. Assim, mais vale comandar homens do que animais. O que se realiza mediante melhores agentes é sempre mais bem realizado.

É preciso, portanto, como dissemos, considerar nos seres animados a autoridade do senhor e a do magistrado,  a do senhor a alma exerce autoridade sobre o corpo; a segunda é a razão que exerce poder sobre as paixões humanas. É claro que o comando, nestas duas espécies, é conforme à natureza, assim como ao interesse de todas as partes, e a igualdade ou a alternância seriam muito nocivas a ambas. (...)

Todos os que não têm nada melhor para nos oferecer do que o uso de seus corpos e de seus membros são condenados pela natureza à escravidão. Para eles, é melhor servirem do que serem entregues a si mesmos.

Numa palavra, é naturalmente escravo aquele que tem tão pouca alma e poucos meios que resolve depender de outra pessoa. Tais são os que só têm instinto, vale dizer, que percebem muito bem a razão nos outros, mas que não fazem por si mesmos uso dela. Toda a diferença entre os escravos e os animais é que os animais não participam de modo algum da razão, nem mesmo têm o sentimento dela e só obedecem a suas sensações. Ademais, o uso dos escravos e dos animais é mais ou menos o mesmo e tiram-se deles os mesmos serviços para as necessidades da vida.

A natureza, por assim dizer, imprimiu a liberdade e a servidão até nos hábitos corporais. Vemos corpos robustos talhados especialmente para carregar fardos e outros usos igualmente necessários; outros, pelo contrário, mais disciplinados, mas também menos robustos e incapazes de tais trabalhos, são bons apenas para a vida política, isto é, para os exercícios da paz e da guerra.

Limitando-nos aos aspectos materiais não hesitamos em acreditar que os indivíduos inferiores devem ser submissos. Se isto é verdade quando se trata do corpo, por mais forte razão devemos dizê-lo da alma.

Não pretendemos agora estabelecer nada além de que, pelas leis da natureza, há homens feitos para a liberdade e outros para a servidão, os quais, tanto por justiça quanto por interesse, convém que sirvam. No entanto, é fácil ver que a opinião contrária não seria inteiramente desprovida de razão. (...)

O que convém ao todo convém também à parte; o que convém à alma convém igualmente ao corpo. Ora, o escravo faz, por assim dizer, parte de seu senhor: embora separado na existência, é como um membro anexado a seu corpo. Ambos têm o mesmo interesse e nada impede que estejam ligados pelo sentimento da amizade, quando foi a conveniência natural que os reuniu. As coisas são diferentes quando eles só estão reunidos pelo rigor da lei ou pela violência dos homens. (Aristóteles, POLÍTICA,  p. 8-12 [trecho adaptado]).

Atividade individual (10 pontos)

1_ Qual a diferença, para Aristóteles, entre "instrumento inanimado" e "animado"?

2_Como Aristóteles define o "escravo por natureza"? Quais características ele atribui a esses indivíduos?

3_Quais são os argumentos que Aristóteles usa para justificar a escravidão como "justa e útil"?

4_"Você concorda com a ideia de que algumas pessoas nascem para obedecer e outras para mandar? Por quê?"


5_"É possível que alguém seja 'naturalmente' um instrumento para o outro?"


6_"Como a visão de Aristóteles sobre o trabalho difere da nossa visão hoje? Onde residem as maiores diferenças?"




quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Política: segundo ano

1 Maquiavel

Para Maquiavel, quando um homem decide dizer a verdade pondo em risco a própria integridade física, tal resolução diz respeito apenas a sua pessoa. Mas se esse mesmo homem é um chefe de Estado, os critérios pessoais não são mais adequados para decidir sobre ações cujas consequências se tornam tão amplas, já que o prejuízo não será apenas individual, mas coletivo. Nesse caso, conforme as circunstâncias e os fins a serem atingidos, pode-se decidir que o melhor para o bem comum seja mentir. ARANHA, M. L. Maquiavel: a lógica da força. São Paulo: Moderna, 2006 (adaptado).

O texto aponta uma inovação na teoria política na época moderna expressa na distinção entre

A Negação da liberdade X defesa da liberdade 

B Mundo das Ideias X Mundo das Sombras

C Idealismo dos antigos  X Realismo político

D Cidade de Deus X cidade dos homens

E Objetividade X Subjetividade

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2 Maquiavel

Mas, sendo minha intenção escrever algo de útil para quem por tal se interesse, pareceu-me mais conveniente ir em busca da verdade extraída dos fatos e não à imaginação dos mesmos, pois muitos conceberam repúblicas e principados jamais vistos ou conhecidos como tendo realmente existido.​ MAQUIAVEL, N. O príncipe. 

​A partir do texto, é possível perceber a crítica de Maquiavel à filosofia política de Platão, pois há nesta a​:

a) elaboração de uma política com fundamento na bondade infinita de Deus.​
b) explicitação dos acontecimentos políticos do período clássico de forma imparcial.​
c) utilização da oratória política como meio de convencer os oponentes na Ágora.​
d) investigação das constituições políticas de Atenas.
e) idealização de um mundo político perfeito existente no mundo das ideias.

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Nasce daqui uma questão: se vale mais ser amado que temido ou temido que amado. Responde-se que ambas as coisas seriam de desejar; mas porque é difícil juntá-las, é muito mais seguro ser temido que amado, quando haja de faltar uma das duas. Porque dos homens se pode dizer, de uma maneira geral, que são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ávidos de lucro, e enquanto lhes fazes bem são inteiramente teus, oferecem-te o sangue, os bens, a vida e os filhos, quando, como acima disse, o perigo está longe; mas quando ele chega, revoltam-se.


MAQUIAVEL, N. O príncipe. Rio de Janeiro: Bertrand, 1991.


A partir da análise histórica do comportamento humano em suas relações sociais e políticas, Maquiavel define o homem como um ser:


A) munido de virtude, com disposição nata a praticar o bem a si e aos outros.

B) possuidor de fortuna, valendo-se de riquezas para alcançar êxito na política.

C) guiado por interesses, de modo que suas ações são imprevisíveis e inconstantes.

D) naturalmente racional, vivendo em um estado pré-social e portando seus direitos naturais.

E) sociável por natureza, mantendo relações pacíficas com seus pares.

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Quanto seja louvável a um príncipe manter a fé, aparentar virtudes e viver com integridade, não com astúcia, todos o compreendem; contudo, observa-se, pela experiência, em nossos tempos, que houve príncipes que fizeram grandes coisas, mas em pouca conta tiveram a palavra dada, e souberam, pela astúcia, transtornar a cabeça dos homens, superando, enfim, os que foram leais (...). Um príncipe prudente não pode nem deve guardar a palavra dada quando isso se lhe torne prejudicial e quando as causas que o determinaram cessem de existir.
(Nicolau Maquiavel, O Príncipe. São Paulo: Nova Cultural, 1997, p. 73-85.)

A partir desse excerto da obra, publicada em 1513, é correto afirmar que:

A) O jogo das aparências e a lógica da força são algumas das principais artimanhas da política moderna explicitadas por Maquiavel.
B) A prudência, para ser vista como uma virtude, não depende dos resultados, mas de estar de acordo com os princípios da fé.
C) Os princípios e não os resultados é que definem o julgamento que as pessoas fazem do governante, por isso é louvável a integridade do príncipe.
D) A questão da manutenção do poder é o principal desafio ao príncipe e, por isso, ele não precisa cumprir a palavra dada, desde que autorizado pela Igreja.

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Maquiavel, pensador político do período moderno, faz severas críticas ao modo de se fazer política no período grego e, sobretudo, no período moderno, isso porque, de acordo com esse pensador político, a política do seu tempo era tomada no sentido aristotélico, ou seja, pensava a partir do que se denomina de dever-ser, em outros termos, pensando o homem, a partir da visão aristotélica, como um animal político, isto é, nascido para a política, uma espécie de o homem como ser comunitário. Por essa razão, Maquiavel, em 1513, escreveu sua famosa obra O Príncipe e, no contexto dessa obra, o autor apresenta a seguinte discussão: “Necessitando, portanto, um príncipe saber usar bem o animal, desse deve tomar como modelos a raposa e o leão, porque o leão não sabe se defender das armadilhas e a raposa não tem defesa contra os lobos. É preciso, portanto, ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para aterrorizar os lobos. Aqueles que usam apenas os modos do leão, nada entendem dessa arte” (MAQUIAVEL. O Príncipe. São Paulo: abril cultural, 978, p. 108. Coleção os pensadores) Desse modo: I. Para Maquiavel, a noção de lobo representa o uso da força e, nesse sentido, deve demonstrar coragem e, acima de tudo, poder para aniquilar os lobos. II. Raposa é, no sentido apresentado na assertiva, uma figura metafórica que representa astúcia, sutileza e esperteza para lidar com os adversários. III. A arte política é, no sentido apresentado por Maquiavel, uma forma ética de lidar com os adversários, pois, para esse autor, o homem é um animal político e por isso se traduz como um ser comunitário. Assinale a alternativa correta, com relação aos enunciados acima: A) Apenas a alternativa I está correta; B) Apenas a alternativa II está correta; C) Apenas a alternativa III está correta; D) Todas as alternativas estão corretas; E) As alternativas I e II estão corretas.
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Contratualistas

Hobbes

Polemizando contra a tradicional tese aristotélica, que via na sociedade o resultado de um instinto primordial, Hobbes sustenta que no gênero humano, diferentemente do animal, não existe sociabilidade instintiva. Entre os indivíduos não existe um amor natural, mas somente uma explosiva mistura de temor e necessidade recíprocos que, se não fosse disciplinada pelo Estado, originaria uma incontrolável sucessão de violências e excessos. NICOLAU, U. Antologia ilustrada de filosofia: das origens à Idade Moderna. São Paulo: Globo, 2005 (adaptado). Referente à constituição da sociedade civil, considere, respectivamente, o correto posicionamento de Aristóteles e Hobbes: Alternativas:
A Instrumento artificial para a realização da justiça e forma de legitimação do exercício da coerção e da violência. B Realização das disposições naturais do homem e artifício necessário para frear a natureza humana. C Resultado involuntário da ação de cada indivíduo e anulação dos impulsos originários presentes na natureza humana. D Objetivação dos desejos da maioria e representação construída para possibilitar as relações interpessoais. E Realização da razão e expressão da vontade dos governados.
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Hobbes

A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito, que, embora por vezes se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo, ou de espírito mais vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que um deles possa com base nela reclamar algum benefício a que outro não possa igualmente aspirar. Donde fica claro como, durante o tempo em que os homens são desprovidos de um poder comum que os mantenha todos num estado de sujeição, eles se encontram naquela condição que é chamada guerra, e tal guerra é de cada um contra o outro. (Hobbes, T, Leviatã).

Segundo a concepção filosófica apresentada, o Estado funciona de modo a: 

a) utilizar o medo como mantenedor da organização social civil; 
b) suplantar as iniciativas egoístas que visam o bem-estar coletivo 
c) garantir a superação da desigualdade natural entre os homens 
d) resguardar a democracia intrínseca ao funcionamento institucional 
e) possibilitar a instauração das liberdades individuais sob a forma de lei

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O fim último, causa final e desígnio dos homens, ao introduzir uma restrição sobre si mesmos sob a qual os vemos viver nos Estados, é o cuidado com sua própria conservação e com uma vida mais satisfeita; quer dizer, o desejo de sair da mísera condição de guerra que é a consequência necessária das paixões naturais dos homens, como o orgulho, a vingança e coisas semelhantes. É necessário um poder visível capaz de mantê-los em respeito, forçandoos, por medo do castigo, ao cumprimento de seus pactos e ao respeito às leis, que são contrárias a nossas paixões naturais.
HOBBES, T. M. Leviatã. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (adaptado).
Para o autor, o surgimento do estado civil estabelece as condições para o ser humano
Alternativas
A internalizar os princípios morais, objetivando a satisfação da vontade individual. B aderir à organização política, almejando o estabelecimento do despotismo. C aprofundar sua religiosidade, contribuindo para o fortalecimento da Igreja. D assegurar o exercício do poder, com o resgate da sua autonomia. E obter a situação de paz, com a garantia legal do seu bem-estar.
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Rousseau

Antes que a arte polisse nossas maneiras e ensinasse nossas paixões a falarem a linguagem apurada, nossos costumes eram rústicos. Não era melhor, mas os homens encontravam sua segurança na facilidade para se reconhecerem reciprocamente, e essa vantagem, de cujo valor não temos mais a noção, poupava-lhes muitos vícios. ROUSSEAU, J.-J. Discurso sobre as ciências e as artes. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (adaptado).
No presente excerto, o filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) exalta uma condição que teria sido vivenciada pelo homem em qual situação?
Alternativas
A No sistema monástico, pela valorização da religião. B Na existência em comunidade, pela comunhão de valores. C No modelo de autogestão, pela emancipação do sujeito. D No estado de natureza, pelo exercício da liberdade. E Na vida em sociedade, pela abundância de bens.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Política

Aristóteles

(ENEM – 2017) Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; evidentemente tal fim será o bem, ou antes, o sumo bem. Mas não terá o conhecimento, porventura, grande influência sobre essa vida? Se assim é, esforcemo-nos por determinar, ainda que em linhas gerais apenas, o que seja ele e de qual das ciências ou faculdades constitui o objeto. Ninguém duvidará de que o seu estudo pertença à arte mais prestigiosa e que mais verdadeiramente se pode chamar a arte mestra. Ora, a política mostra ser dessa natureza, pois é ela que determina quais as ciências que devem ser estudadas num Estado, quais são as que cada cidadão deve aprender, e até que ponto; e vemos que até as faculdades tidas em maior apreço, como a estratégia, a economia e a retórica, estão sujeitas a ela. Ora, como a política utiliza as demais ciências e, por outro lado, legisla sobre o que devemos e o que não devemos fazer, a finalidade dessa ciência deve abranger as das outras, de modo que essa finalidade será o bem humano.​
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. In: Pensadores. São Pauto: Nova Cultural, 1991 (adaptado).​
Para Aristóteles, a relação entre o sumo bem e a organização da pólis pressupõe que​:
a) o bem dos indivíduos consiste em cada um perseguir seus interesses.​
b) o sumo bem é dado pela fé de que os deuses são os portadores da verdade.​
c) a política é a ciência que precede todas as demais na organização da cidade.​
d) a educação visa formar a consciência de cada pessoa para agir corretamente.​
e) a democracia protege as atividades políticas necessárias para o bem comum.