quarta-feira, 29 de outubro de 2025

"Racismo estrutural"

    Sílvio Luiz de Almeida defende a tese do sociedade "racismo estrutural". "Comportamentos individuais e processos institucionais são derivados de uma sociedade cujo racismo é regra e não exceção", afirma o autor. Este racismo se manifesta de diversas formas, dentre elas nas instituições ("racismo institucional": instituições públicas e privadas, escolas, empresas). 
    No texto abaixo, o conceito de racismo institucional é exposto por Almeida. 
    
    O conceito de racismo institucional foi um enorme avanço no que se refere ao estudo das relações raciais. Primeiro, ao demonstrar que o racismo transcende o âmbito da ação individual, e, segundo, ao frisar a dimensão do poder como elemento constitutivo das relações raciais, não somente o poder de um indivíduo de uma raça sobre outro, mas de um grupo sobre outro, algo possível quando há o controle direto ou indireto de determinados grupos sobre o aparato institucional.

    Entretanto, algumas questões ainda persistem. Vimos que as instituições reproduzem as condições para o estabelecimento e a manutenção da ordem social. Desse modo, se é possível falar de um racismo institucional, significa que a imposição de regras e padrões racistas por parte da instituição é de alguma maneira vinculada à ordem social que ela visa resguardar. Assim como a instituição tem sua atuação condicionada a uma estrutura social previamente existente – com todos os conflitos que lhe são inerentes –, o racismo que essa instituição venha a expressar é também parte dessa mesma estrutura. As instituições são apenas a materialização de uma estrutura social ou de um modo de socialização que tem o racismo como um de seus componentes orgânicos. Dito de modo mais direto: as instituições são racistas porque a sociedade é racista.

   Esta frase aparentemente óbvia tem uma série de implicações.     A primeira é a de que, se há instituições cujos padrões de funcionamento redundam em regras que privilegiem determinados grupos raciais, é porque o racismo é parte da ordem social. Não é algo criado pela instituição, mas é por ela reproduzido. Mas que fique a ressalva já feita: a estrutura social é constituída por inúmeros conflitos – de classe, raciais, sexuais etc. –, o que significa que as instituições também podem atuar de maneira conflituosa, posicionando-se dentro do conflito. Em uma sociedade em que o racismo está presente na vida cotidiana, as instituições que não tratarem de maneira ativa e como um problema a desigualdade racial irão facilmente reproduzir as práticas racistas já tidas como “normais” em toda a sociedade.

    É o que geralmente acontece nos governos, empresas e escolas em que não há espaços ou mecanismos institucionais para tratar de conflitos raciais e sexuais. Nesse caso, as relações do cotidiano no interior das instituições vão reproduzir as práticas sociais corriqueiras, dentre as quais o racismo, na forma de violência explícita ou de microagressões – piadas, silenciamento, isolamento etc. Enfim, sem nada fazer, toda instituição irá se tornar uma correia de transmissão de privilégios e violências racistas e sexistas. De tal modo que, se o racismo é inerente à ordem social, a única forma de uma instituição combatê-lo é por meio da implementação de práticas antirracistas efetivas. É dever de uma instituição que realmente se preocupe com a questão racial investir na adoção de políticas internas que visem:

a. promover a igualdade e a diversidade em suas relações internas e com o público externo – por exemplo, na publicidade;
b. remover obstáculos para a ascensão de minorias em posições de direção e de prestígio na instituição;
c. manter espaços permanentes para debates e eventual revisão de práticas institucionais
d. promover o acolhimento e possível composição de conflitos raciais e de gênero.

    A segunda consequência é que o racismo não se limita à representatividade. Ainda que essencial, a mera presença de pessoas negras e outras minorias em espaços de poder e decisão não significa que a instituição deixará de atuar de forma racista. A ação dos indivíduos é orientada, e muitas vezes só é possível por meio das instituições, sempre tendo como pano de fundo os princípios estruturais da sociedade, como as questões de ordem política, econômica e jurídica. Isso nos leva a mais duas importantes e polêmicas questões:
    
1. a supremacia branca no controle institucional é realmente um problema, na medida em que a ausência de pessoas não brancas em espaços de poder e prestígio é um sintoma de uma sociedade desigual e, particularmente, racista. 

Portanto, é fundamental para a luta antirracista que pessoas negras e outras minorias estejam representadas nos espaços de poder, seja por motivos econômicos e políticos, seja por motivos éticos. Mas seria tal medida suficiente? É uma prática antirracista efetiva manter alguns poucos negros em espaços de poder sem que haja um compromisso com a criação de mecanismos institucionais efetivos de promoção da igualdade?

2. a liderança institucional de pessoas negras basta quando não se tem poder real, projetos e/ou programas que possam de fato incidir sobre problemas estruturais, como as questões da ordem da economia, da política e do direito?

Em resumo: o racismo é uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo “normal” com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional. 

O racismo é estrutural. Comportamentos individuais e processos institucionais são derivados de uma sociedade cujo racismo é regra e não exceção. O racismo é parte de um processo social que ocorre “pelas costas dos indivíduos e lhes parece legado pela tradição”. Nesse caso, além de medidas que coíbam o racismo individual e institucionalmente, torna-se imperativo refletir sobre mudanças profundas nas relações sociais, políticas e econômicas.

Atividade:

Cada grupo deverá responder por escrito a duas perguntas específicas e duas perguntas iguais para todos os grupos:

Grupo 1:

a) Qual a diferença entre racismo institucional e individual?
b) De que forma o racismo institucional contribui para a exclusão de pessoas negras
dos espaços de prestígio e poder no mundo do trabalho?
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

Grupo 2:

a) Por que as instituições reproduzem o racismo, mesmo sem 
intenção?
b) Explique como a ausência de políticas institucionais antirracistas em empresas e organizações pode favorecer a reprodução de desigualdades raciais no mercado de
trabalho.
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

Grupo 3:

a) Representatividade resolve tudo? Por quê?
b) Explique por que é fundamental que as instituições de trabalho adotem ações afirmativas e espaços de debate sobre desigualdades raciais.
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

Grupo 4:

a) Por que a presença de algumas pessoas negras em cargos de chefia não é suficiente
para garantir igualdade racial nas instituições de trabalho, segundo o autor?
b) Analise os efeitos da supremacia branca no controle institucional e sua relação com a baixa representatividade de pessoas negras em cargos de liderança no mercado de trabalho.
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

Grupo 5:

a) Como o racismo estrutural impacta as oportunidades de ascensão profissional de trabalhadores negros em comparação com trabalhadores brancos? Use argumentos do texto para embasar sua resposta.
b) O texto destaca que o racismo é parte da “ordem normal” das relações sociais. Que práticas institucionais seriam necessárias para transformar essa realidade no mundo do trabalho?
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

Grupo 6:

a) De que forma as instituições contribuem para a manutenção do racismo estrutural, segundo o autor? Relacione com exemplos da vida cotidiana.
b) O texto afirma que “as instituições são racistas porque a sociedade é racista”. Analise essa afirmação e discorra sobre suas possíveis implicações para o combate ao racismo.
c) Quais ações a escola poderia adotar como práticas antirracistas reais?
d) Quais ações as empresas poderiam adotar como práticas antirracistas reais?

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Filosofia no Enem

Temas mais cobrados (2009–2024)

  1. Filosofia política — 20 questões (11%)

  2. Moral e ética — 15 questões (8%)

  3. Aristóteles — 10 questões (5%)

  4. Origens da modernidade — 8 questões (4%)

  5. Descartes — 8 questões (4%)

  6. Filosofia medieval — 8 questões (4%)

  7. Pré-socráticos (Naturalistas) — 8 questões (4%)

  8. Cultura e sociedade — 7 questões (3%)

  9. Epistemologia — 7 questões (3%)

  10. Filosofia antiga — 7 questões (3%)

  11. Filosofia contemporânea — 7 questões (3%)

  12. Kant — 7 questões (3%)

  13. Escola de Frankfurt — 6 questões (3%)

  14. Escolas helenísticas — 6 questões (3%)

  15. Platão — 6 questões (3%)


1. Filosofia Política (tema mais cobrado)


Platão

Conceito de cidade ideal


Aristóteles

"O homem é um animal político"

Aristóteles dividiu as formas de governo em seis tipos, classificados por quem governa (um, poucos ou muitos) e com que objetivo (bem comum ou interesse particular). 

As formas puras (que buscam o bem comum) são a monarquia (governo de um), a aristocracia (governo dos melhores, ou poucos) e a politeia ou república (governo de muitos). As formas corrompidas (que visam o interesse próprio) são a tirania (monarquia corrompida), a oligarquia (aristocracia corrompida) e a democracia (politeia corrompida, também chamada de demagogia). 

Formas puras (em busca do bem comum)

Monarquia: Governo de um único indivíduo (o melhor), que governa em benefício de todos.
Aristocracia: Governo dos "melhores", um grupo de poucos que governa para o bem de todos.

Politeia (República): Governo da maioria, que governa de acordo com a lei para o bem comum. Aristóteles a considerava a forma mais adequada na prática, pois permitia a alternância de poder entre os cidadãos e o governo seria mais estável e justo, com base nas leis. 

Formas corrompidas (em busca do interesse particular)

Tirania: Forma degenerada da monarquia, onde um único indivíduo governa para benefício próprio.

Oligarquia: Forma corrompida da aristocracia, onde o poder é exercido por poucos, geralmente os ricos, em seu próprio interesse.

Democracia (demagogia): Forma corrompida da politeia, onde o governo dos muitos (pobres) é usado em benefício próprio, ignorando os interesses do bem comum. Aristóteles via a demagogia como uma degeneração da democracia, onde os políticos prometem o que o povo quer, em vez do que ele precis




- O Príncipe → realismo político: o poder como ele é, não como deveria ser.

- É melhor ser temido do que amado.

- “Os fins justificam os meios.”

Contratualismo: Hobbes, Locke e Rousseau

FilósofoNatureza humanaObjetivo do contrato  Tipo de Estado
HobbesEgoísta, medo, guerra de
todos contra todos
Segurança e paz   Absolutista
Lockelivre, mas insegura  devido
às paixões e interesses
Proteger direitos naturais
(vida, liberdade, propriedade)
   Liberal
RousseauBom, mas corrompido
pela sociedade
Garantir liberdade e
igualdade pela vontade geral
   Democrático


Montesquieu

   _ Separação dos três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário

   _ Base da democracia moderna.


Adam Smith: questão com Paul Collier citando Adam Smith para discutir a motivação das condutas no capitalismo.


Hobbes

Poder soberano - Leviathan


Foucault

Poder Disciplinar
Biopolítica


2. Moral e Ética

  • Ética: reflexão racional sobre o agir humano.

  • Moral: conjunto de costumes e normas de uma sociedade.

Modelos éticos

    

Aristóteles: ética da virtude e da felicidade (eudaimonia)o meio-termo.

    
Epicuro:
prazer moderado e sábio.

    
Estoicos:
tranquilidade da alma, aceitação do destino.


Kant:
imperativo categórico → aja apenas segundo regras que possam valer universalmente; nunca trate o outro como meio.

Utilitarismo (Bentham, Mill):
melhor ação é a que gera o máximo de felicidade para o maior número de pessoas.

Bentham: punição e felicidade (questão 2025)


Ética aplicada a questões atuais: pensar como valores e princípios éticos orientam ações em temas contemporâneos.

  • Exemplos: ética ambiental (sustentabilidade), bioética (ética em pesquisas e saúde), tecnologia e redes sociais (privacidade, inteligência artificial e impacto social).


3. Pré-socráticos (Naturalistas ou Filósofos da Physis)

  • Substituem o mito pelo lógos (razão).

  • Procuram o arché, princípio de tudo.

  • Exemplos:

    • Tales: água

    • Heráclito: fogo, tudo flui

    • Parmênides: o ser é imutável

    • Demócrito: átomos

    • Pitágoras: número, harmonia e cosmos

    • Heráclito e Parmênides: contraste entre fluxo (panta rhei) e imutabilidade do ser.


4. Filosofia Antiga – Período Clássico


Sofistas x Sócrates
  • Sofistas: relativismo, retórica, cobram pelo ensino.

  • Sócrates: busca da verdade pelo diálogo; método maiêutico.

  • ironia (só sei que nada sei), dialética na forma de perguntas curtas, parto das ideias

Platão

  • Teoria das Ideias: mundo sensível (aparência) x mundo inteligível (verdade).

  • Mito da Caverna → libertação pela razão.

  • "A República"

Aristóteles

  • Ética da virtude → felicidade como prática do bem.

  • Política → o homem é um “animal político”.


Filosofias helenísticas

Começa com a morte de Alexandre, o Grande (323 a.C.) e se estende até cerca do século até o ano 30 a.C. (conquista romana do Egito). ) centro cultural da filosofia se desloca de Atenas para cidades como Alexandria, Rodes e Pérgamo. O foco da filosofia muda: em vez de discutir o ser e o conhecimento como na era clássica (Sócrates, Platão, Aristóteles), os filósofos helenísticos buscam a sabedoria prática e a felicidade individual em um mundo político instável.


Epicurismo: busca da felicidade por meio do prazer moderado, da amizade e da ausência de perturbações (ataraxia) 

Estoicismo:  : defende a vida guiada pela razão, aceitando o destino com serenidade para alcançar a tranquilidade da alma.

Ceticismo: a verdade absoluta é inacessível; o sábio deve suspender o juízo (epoché) para alcançar a tranquilidade da alma (ataraxia).
  • Principais nomes: Pirro de Élis e Sexto Empírico.

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5. Filosofia Medieval

    • União entre fé e razão.

    • Santo Agostinho (Patrística): o mal não existe, mas é ausência de bem; 
      → O mal não é uma força positiva, mas a privação do bem causada pelo mau uso do livre arbítrio.

    • São Tomás de Aquino (Escolástica): fé e razão não se opõem; usa Aristóteles para provar racionalmente a existência de Deus.

    • Ockham: querela dos universais


6. Origens da Modernidade (Final do século XV, por volta de 1450–1500, e se consolida nos séculos XVI e XVII)

  • Renascimento → Antropocentrismo (homem no centro).

  • Humanismo renascentista: valorização do ser humano, da razão e da criatividade, rompendo com a visão puramente religiosa da Idade Média e inspirando artes, ciência e pensamento crítico.

  • Revolução científica (Copérnico, Galileu, Newton).

  • Quebra da visão teocêntrica.

Racionalismo x Empirismo

  • Racionalismo (Descartes): razão como fonte segura do conhecimento.

  • Empirismo: conhecimento vem da experiência sensível.

    • Locke: ideias vêm da experiência; mente = tábula rasa.

    • Hume: experiência gera hábito; causa e efeito são inferências do hábito.

    • Bacon: defende o método experimental para investigar a natureza. (método científico)


7. Descartes (1596 - 1650)

  • Parte da dúvida (dúvida metódica)

  • Cogito: “Penso, logo SOU" (primeira certeza, verdade)

  • Método cartesiano:

    1. Evidência: aceitar apenas ideias claras e distintas

    2. Análise: dividir problemas complexos em partes menores

    3. Síntese: ordenar o pensamento do simples ao complexo

    4. Enumeração (revisão): revisar sistematicamente todas as etapas para garantir que nada foi omitido;

  • Dualismo: corpo (matéria) x alma (pensamento).

  • Res Extensa x Res Cogito


8. Epistemologia (Teoria do Conhecimento)

  • Racionalismo: a razão produz o conhecimento seguro.

  • Empirismo: o conhecimento é obtido pela experiência sensível.

  • Hume: o conhecimento é hábito da experiência repetida.

  • Kant: síntese entre razão e experiência.

    • Conhecemos apenas os fenômenos, não a “coisa em si”.


9. Filosofia Contemporânea

  • Nietzsche: crítica à moral tradicional, conceito de “vontade de poder” e super-homem

  • Marx: alienação é a perda de controle do trabalhador sobre seu trabalho; ideologia serve para justificar e naturalizar a dominação na sociedade.
  • Heidegger (pontual em atualidades/existencialismo tecnológico): crítica à técnica moderna.

  • Escola de Frankfurt: crítica à indústria cultural → cultura transformada em mercadoria. Denuncia a alienação e padronização que enfraquecem a consciência crítica. (Adorno, Horkheimer, Marcuse)

  • Herbert Marcuse: Sociedade industrial.

  • Hannah Arendt: banalidade do mal → o mal nasce da falta de pensamento crítico.

  • Sartre (Existencialismo): “O homem está condenado à liberdade”; a existência vem antes da essência.

  • Rawls: justiça como equidade — princípios escolhidos por indivíduos livres e racionais sob um “véu da ignorância”, garantindo igualdade de direitos e oportunidades.

  • Chantal Mouffe: defende a democracia agonística, onde o conflito é natural e produtivo, garantindo pluralidade e participação política.

  • Foucault: o poder está presente em todas as relações sociais; ele produz saberes e controla os corpos por meio de instituições como escola, prisão e hospital.

  • Deleuze: pensamento como rizoma (sem centro, múltiplo).

  • Derrida: direito e justiça

  • Filosofia indígena: propõe a reconexão com a natureza e a ideia de que a humanidade é parte, não centro, da vida no planeta (Ailton Krenak, Davi Kopenawa).

  • Filosofia africana: valoriza a comunidade, a ancestralidade e o princípio do Ubuntu — “eu sou porque nós somos”.

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Estética

David Hume: eloquência

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TEMAS

Justiça e igualdade social: garantia de direitos iguais e oportunidades justas para todos, combatendo desigualdades e promovendo inclusão.

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* EXTRA

O CONTRATUALISMO de Hobbes, Locke e Rousseau busca explicar a origem do Estado por meio de um acordo (contrato social) entre os indivíduos para sair do "estado de natureza".  As principais diferenças estão nas visões sobre a natureza humana e o objetivo do contrato: 

Para Hobbes, a natureza humana é egoísta e o contrato visa garantir segurança e evitar a "guerra de todos contra todos" através de um poder absoluto; 

Para Locke, o contrato visa proteger os direitos naturais, especialmente a propriedade privada, que já existe no estado de natureza e é mais seguro que a posse, embora inseguro sem leis;     

Para Rousseau, a natureza humana é boa, mas a sociedade e a propriedade privada a corromperam, sendo o contrato necessário para garantir a liberdade e a igualdade através da "vontade geral". 

Thomas Hobbes

Estado de natureza: Uma guerra constante de todos contra todos, onde os homens são egoístas e movidos pelo medo. A famosa frase "o homem é o lobo do homem" resume essa visão. 

Contrato social: Os indivíduos renunciam à sua liberdade para um soberano absoluto (Estado) em troca de segurança e paz, para acabar com a violência. 

Objetivo: Garantir a vida e a segurança, acabando com o medo e a violência. 

John Locke

Estado de natureza: Os indivíduos são livres, mas a insegurança existe devido às paixões e interesses. A lei natural governa, e os direitos naturais existem, sendo a propriedade um dos mais importantes. 

Contrato social: Os indivíduos entram em acordo para criar um Estado que preserve seus direitos naturais e proteja a propriedade privada. 

Objetivo: Preservar os direitos naturais e a propriedade privada que já existem no estado de natureza. 

Jean-Jacques Rousseau

Estado de natureza: O homem é bom, solitário e vive em harmonia com a natureza, sem maldade nem propriedade privada. 

Contrato social: A propriedade privada surge, gera desigualdade e corrompe a bondade natural do homem. O contrato social deveria ter sido um acordo para garantir a liberdade e igualdade, mas na prática, apenas sancionou a desigualdade. 

Objetivo: Restabelecer a liberdade e a igualdade através de um novo contrato baseado na "vontade geral" de todos os cidadãos. 


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A concepção aristotélica da escravidão (1ST, 1INFO, 1REG1)



Alguns consideram que o poder senhorial não tem nenhum fundamento na natureza e pretendem que esta nos criou a todos livres, e a escravidão só foi introduzida pela lei do mais forte e é, por si mesma, injusta como um puro efeito da violência.

Existem dois tipos de instrumentos: uns inanimados, outros animados. Assim é que, para a navegação, o leme é o instrumento inanimado e o comandante, o instrumento animado. Em todas as artes, o trabalhador é uma espécie de instrumento. Chama-se "instrumento" o que realiza o efeito, e "propriedade doméstica" o que ele produz.

O tear, por exemplo, e o torno, além do exercício que nos proporciona seu uso, fornecem-nos ainda pano e camas; ao passo que o pano e a cama que eles nos produzem se limitam ao nosso simples uso.

O senhor não é senão o proprietário de seu escravo, mas não lhe pertence; o escravo, pelo contrário, não somente é destinado ao uso do senhor, como também dele é parte. Isto basta para dar uma ideia da escravidão e para fazer conhecer esta condição.

O homem que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a um outro, é “escravo por natureza”: é uma posse e um instrumento para agir separadamente e sob as ordens de seu senhor.

A Servidão Natural

Mas faz a natureza ou não de um homem um escravo? É justa e útil a escravidão ou é contra a natureza? É isto que devemos examinar agora. O fato e a experiência, tanto quanto a razão, nos conduzirão aqui ao conhecimento.

Não é apenas necessário, mas também vantajoso que haja mando por um lado e obediência por outro; e todos os seres, desde o primeiro instante do nascimento, são, por assim dizer, marcados pela natureza, uns para comandar, outros para obedecer.

Entre eles, há várias espécies de superiores ou de súditos, e o mando é tanto mais nobre quanto mais elevado é o próprio súdito. Assim, mais vale comandar homens do que animais. O que se realiza mediante melhores agentes é sempre mais bem realizado.

É preciso, portanto, como dissemos, considerar nos seres animados a autoridade do senhor e a do magistrado,  a do senhor a alma exerce autoridade sobre o corpo; a segunda é a razão que exerce poder sobre as paixões humanas. É claro que o comando, nestas duas espécies, é conforme à natureza, assim como ao interesse de todas as partes, e a igualdade ou a alternância seriam muito nocivas a ambas. (...)

Todos os que não têm nada melhor para nos oferecer do que o uso de seus corpos e de seus membros são condenados pela natureza à escravidão. Para eles, é melhor servirem do que serem entregues a si mesmos.

Numa palavra, é naturalmente escravo aquele que tem tão pouca alma e poucos meios que resolve depender de outra pessoa. Tais são os que só têm instinto, vale dizer, que percebem muito bem a razão nos outros, mas que não fazem por si mesmos uso dela. Toda a diferença entre os escravos e os animais é que os animais não participam de modo algum da razão, nem mesmo têm o sentimento dela e só obedecem a suas sensações. Ademais, o uso dos escravos e dos animais é mais ou menos o mesmo e tiram-se deles os mesmos serviços para as necessidades da vida.

A natureza, por assim dizer, imprimiu a liberdade e a servidão até nos hábitos corporais. Vemos corpos robustos talhados especialmente para carregar fardos e outros usos igualmente necessários; outros, pelo contrário, mais disciplinados, mas também menos robustos e incapazes de tais trabalhos, são bons apenas para a vida política, isto é, para os exercícios da paz e da guerra.

Limitando-nos aos aspectos materiais não hesitamos em acreditar que os indivíduos inferiores devem ser submissos. Se isto é verdade quando se trata do corpo, por mais forte razão devemos dizê-lo da alma.

Não pretendemos agora estabelecer nada além de que, pelas leis da natureza, há homens feitos para a liberdade e outros para a servidão, os quais, tanto por justiça quanto por interesse, convém que sirvam. No entanto, é fácil ver que a opinião contrária não seria inteiramente desprovida de razão. (...)

O que convém ao todo convém também à parte; o que convém à alma convém igualmente ao corpo. Ora, o escravo faz, por assim dizer, parte de seu senhor: embora separado na existência, é como um membro anexado a seu corpo. Ambos têm o mesmo interesse e nada impede que estejam ligados pelo sentimento da amizade, quando foi a conveniência natural que os reuniu. As coisas são diferentes quando eles só estão reunidos pelo rigor da lei ou pela violência dos homens. (Aristóteles, POLÍTICA,  p. 8-12 [trecho adaptado]).

Atividade individual (10 pontos)

1_ Qual a diferença, para Aristóteles, entre "instrumento inanimado" e "animado"?

2_Como Aristóteles define o "escravo por natureza"? Quais características ele atribui a esses indivíduos?

3_Quais são os argumentos que Aristóteles usa para justificar a escravidão como "justa e útil"?

4_"Você concorda com a ideia de que algumas pessoas nascem para obedecer e outras para mandar? Por quê?"


5_"É possível que alguém seja 'naturalmente' um instrumento para o outro?"


6_"Como a visão de Aristóteles sobre o trabalho difere da nossa visão hoje? Onde residem as maiores diferenças?"




quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Classificação dos Jogos segundo Caillois (3 EJA)


AGÔN

Todo um grupo de jogos aparece como competição, isto é, como um combate em que a igualdade das oportunidades é artificialmente criada para que os adversários se enfrentem em condições ideais, suscetíveis de dar um valor preciso e incontestável ao triunfo do vencedor. Portanto, sempre se trata de uma rivalidade que se concentra em uma única qualidade (rapidez, resistência, força, memória, destreza, engenhosidade etc.), que se exerce em limites definidos e sem nenhum auxílio externo, de tal modo que o vencedor apareça como o melhor em uma determinada categoria de proeza. Esta é a regra das provas esportivas e a razão de ser de suas múltiplas subdivisões, quer oponham dois indivíduos ou duas equipes  (tênis, futebol, boxe, esgrima etc.), quer sejam disputadas entre um número indeterminado de concorrentes (corridas de toda espécie, golfe, atletismo etc.). À mesma classe pertencem ainda os jogos em que os adversários desde o início dispõem de elementos exatamente de mesmo valor e de mesmo número. 

Por mais cuidadosa que seja a tentativa de organizar uma igualdade, nem por isso essa igualdade parece inteiramente realizável. Algumas vezes, como nas damas ou no xadrez, o fato de jogar primeiro oferece uma vantagem, pois essa prioridade permite ao jogador favorecido ocupar posições-chave ou impor sua estratégia. Ao contrário, nos jogos de apostas, quem declara por último beneficia-se das indicações fornecidas pelas escolhas de seus adversários. Nos encontros esportivos, a exposição, o fato de ter o sol pela frente ou pelas costas, o vento que ajuda ou atrapalha um dos dois campos e nas corridas disputadas em uma pista fechada, o fato de se encontrar no interior ou no exterior da curva constituem, se for o caso, muitos trunfos ou inconvenientes cuja influência não é forçosamente negligenciável. Estes inevitáveis desequilíbrios são anulados ou temperados pelo sorteio da situação inicial, e depois por uma rígida alternância da posição privilegiada.

Para cada um dos concorrentes o incentivo do jogo é o desejo de ver reconhecida sua excelência em um determinado campo. É por isso que a prática do agôn supõe uma atenção constante, um treino apropriado, esforços assíduos e a vontade de vencer. Implica disciplina e perseverança. Deixa o campeão aos seus próprios recursos, estimula-o a tirar deles o melhor partido possível, obriga-o, enfim, a servir-se deles lealmente e nos limites fixados. Sendo os recursos iguais para todos, o resultado é, em contrapartida, tornar indiscutível a superioridade do vencedor. O agôn se apresenta como a forma pura do mérito pessoal e serve para manifestá-lo.

Fora do jogo ou no limite do jogo é possível encontrar o espírito do agôn em outros fenômenos culturais que obedecem ao mesmo código: o duelo, o torneio.

Em princípio, acreditava-se que os animais ignoravam o agôn, que não concebiam nem limites nem regras e buscavam apenas em um combate implacável uma brutal vitória. É evidente que nem as corridas de cavalos nem as rinhas de galos poderiam ser invocadas, pois são lutas em que os homens colocam frente a frente animais treinados, segundo normas estabelecidas apenas por eles. Todavia, ao considerar certos fatos, parece que os animais já têm o gosto de se oporem em encontros nos quais, na ausência de regras, como é de se esperar, pelo menos um limite está implicitamente estabelecido e espontaneamente respeitado. É o caso, principalmente, dos gatos e dos cães jovens, das focas e dos ursos jovens, cujo divertimento é derrubarem-se uns aos outros, evitando, no entanto, machucarem-se.

Mais convincente ainda é o hábito dos bovídeos que, com a cabeça baixa, testa com testa, tentam fazer recuar um ao outro. Os cavalos praticam o mesmo tipo de duelo ami- gável e conhecem mais uma modalidade: para medir forças, erguem-se sobre as patas traseiras e se deixam cair um sobre o outro com todo o peso e com um vigoroso impulso, para fazer com que seu adversário perca o equilíbrio. Da mesma forma, os observadores assinalaram vários jogos de perseguição que acontecem após desafio ou convite. O animal que cai nada tem a temer de seu vencedor. O caso mais eloquente é
certamente o dos pequenos pavões selvagens chamados “combatentes”. Eles escolhem um campo de batalha, “um lugar um pouco elevado”, como diz Karl Groos, “sempre úmi- do e recoberto de relva baixa, com um diâmetro de um metro e meio a dois metros”. Os machos ali se reúnem diariamente. O primeiro que chega espera por um adversário e a luta começa. Os campeões balançam e inclinam a cabeça várias vezes. Suas penas se eriçam. Correm um contra o outro com o bico levantado e atacam. Nunca há perseguição ou luta fora do espaço delimitado pelo torneio. É por isso que me parece legítimo, a partir deste e dos outros exemplos, evocar o termo agôn, pois está muito claro que, para cada adversário, o objetivo dos encontros não é causar um prejuízo sério em seu rival, mas demonstrar sua própria superioridade. Os homens só acrescentam os requintes e a precisão da regra.

Entre as crianças, assim que a personalidade se afirma e antes do aparecimento das competições regradas, é possível constatar a regularidade de estranhos desafios, em que os adversários se esforçam para provar quem tem a maior resistência. São vistos apostando em quem fixará o sol por mais tempo, quem resistirá às cócegas, não respirará, não piscará os olhos etc. Algumas vezes o desafio é mais sério: trata-se de resistir à fome ou à dor, sob forma de fustigação, de beliscões, de picadas, de queimaduras. Esses jogos de ascetismo, como foram chamados, inauguram então algumas provas mais difíceis que antecipam os maus-tratos e as chacotas as quais os adolescentes devem suportar quando da iniciação. Distanciam-se tanto do agôn, que logo encontram suas formas perfeitas, seja com os jogos e esportes de competição propriamente ditos, seja com os jogos e esportes de destreza (caça, alpinismo, palavras cruzadas, problemas de
xadrez etc.) em que os campeões, sem se enfrentar diretamente, acabam participando de um imenso concurso difuso e incessante.

ALEA

Em latim é o nome de jogo de dados. Utilizo-o aqui para designar todos os jogos baseados, exatamente ao contrário do agôn, em uma decisão que não depende do jogador, sobre a qual não poderia ter a mínima ascendência e que, consequentemente, trata de ganhar mais do destino do que do adversário. Melhor dizendo, o destino é o único artesão da vitória, e esta, quando existe rivalidade, significa exclusivamente que o vencedor foi mais beneficiado por ele do que o vencido. Alguns exemplos puros oferecidos por esta categoria de jogos são os dados, a roleta, o cara ou coroa, a loteria etc.

Aqui não só buscamos eliminar a injustiça do acaso, mas a própria arbitrariedade deste constitui o único impulso do jogo. A alea marca e revela a generosidade do destino. Em relação a ele, o jogador é inteiramente passivo, não desenvolve suas qualidades ou disposições, os recursos de sua destreza, de seus músculos, de sua inteligência. Apenas aguarda, esperançoso e trêmulo, o decreto da sorte, e arrisca uma aposta. A justiça – sempre buscada, mas desta vez de outra forma, e que tende a se exercer também aqui em condições ideais – recompensa-o proporcionalmente a seu risco com uma rigorosa exatidão. Todo o zelo utilizado no Agon para igualar as oportunidades dos competidores é aqui empregado para equilibrar escrupulosamente o risco e o lucro.

Ao contrário do agôn, a alea nega o trabalho, a paciência, a habilidade, a qualificação; elimina o valor profissional, a regularidade, o treino. Abole em um instante seus resultados acumulados. É desgraça total ou graça absoluta. Dá ao jogador satisfeito infinitamente mais do que uma vida de trabalho, de disciplina e de cansaço poderia lhe oferecer. Aparece como uma insolente e soberana derrisão do mérito. Supõe por parte do jogador uma atitude exatamente oposta àquela de que dá prova no agôn. Neste, conta apenas consigo mesmo; na alea, conta com tudo, com o mais leve indício, com a mínima particularidade externa que logo considera como um sinal ou uma advertência, com cada singularidade que percebe – com tudo, exceto consigo mesmo.

O agôn é uma reivindicação da responsabilidade pessoal; a alea, uma renúncia da vontade, um abandono ao destino. 

Alguns jogos – como o dominó, o gamão e a maioria dos jogos de cartas – combinam o agôn e a alea, pois o acaso preside à composição das “mãos” de cada jogador e, em seguida, estes exploram, o melhor que puderem e segundo sua força, o prêmio que um destino cego lhes atribuiu. Em um jogo como o bridge, são o conhecimento e o raciocínio que constituem a própria defesa do jogador e que lhe permitem tirar o melhor partido das cartas recebidas, mas em um jogo como o pôquer são muito mais as qualidades de penetração psicológica e de caráter.

Em geral, o papel do dinheiro é tanto mais considerável quanto maior é a parte do acaso e, consequentemente, mais fraca a defesa do jogador. A razão para isso aparece claramente: a alea não tem como função fazer com que os mais inteligentes ganhem dinheiro, mas, pelo contrário, visa abolir as superioridades naturais ou adquiridas dos indivíduos para colocar cada um em pé de igualdade absoluta diante do cego veredito da sorte.

Como o resultado do agôn é necessariamente incerto e deve se aproximar paradoxalmente do efeito do acaso puro, uma vez que as oportunidades dos competidores são, em princípio, tão equilibradas quanto possível, conclui-se que todo encontro que possui as características de uma competição regrada ideal pode ser objeto de apostas, isto é, de aleas: as corridas de cavalos, as partidas de futebol, as rinhas de galos. Talvez até as taxas das apostas possam variar constantemente durante a partida, segundo as peripécias do agôn.

Os jogos de azar parecem jogos humanos por excelência. Os animais conhecem os jogos de competição, de simulacro e de vertigem. K. Groos, principalmente, oferece exemplos impressionantes para cada uma destas categorias. Em contrapartida, os animais, demasiado engajados no imediato e demasiado escravos de seus impulsos, não poderiam imaginar um poder abstrato e insensível a cujo veredito se submeteriam previamente por brincadeira e sem reagir. Esperar passiva e deliberadamente a decisão de uma fatalidade, contar com ela para arriscar um bem para multiplicá-lo na mesma proporção das chances de perdê-lo é uma atitude que exige uma possibilidade de previsão, de representação e de especulação, da qual só uma reflexão objetiva e calculadora é capaz.

Talvez seja na medida em que a criança se assemelhe ao animal que os jogos de azar não têm para ela a importância que têm para o adulto. Para ela, jogar é agir. Por outro, privada da independência econômica e sem dinheiro que lhe pertença, não encontra nos jogos de azar aquilo que constitui seu principal interesse. São incapazes de encantá-las. Certamente, as bolas de gude são para ela uma moeda. Contudo, para ganhá-las, confia em sua destreza mais do que em sua sorte.

O agôn e a alea traduzem atitudes opostas e de alguma forma simétricas, mas ambos obedecem a uma mesma lei: a criação artificial entre os jogadores das condições de igualdade pura que a realidade recusa aos homens. Pois nada na vida é claro, a não ser precisamente que, no início, tudo nela é nebuloso, tanto as oportunidades como os méritos. O jogo, agôn ou alea, é portanto uma tentativa para substituir a confusão normal da existência cotidiana por situações perfeitas. Estas são concebidas para que o papel do mérito ou do acaso se mostre nítido e indiscutível. Implicam também que todos devem desfrutar exatamente das mesmas possibilidades de provar seu valor ou, em outra escala, exatamente das mesmas oportunidades de receber um benefício. De uma forma ou de outra, evadimo-nos do mundo fazendo-o outro. Também é possível se evadir fazendo-se outro. É a isto que responde a mimicry.

MIMICRY

Todo jogo supõe a aceitação temporária, se não de uma ilusão (ainda que esta última palavra signifique apenas entrar no jogo: in-lusio), pelo menos de um universo fechado, convencional e, sob certos aspectos, fictício. O jogo pode consistir não em exibir uma atividade ou em experimentar um destino em um meio imaginário, mas em tornar a si mesmo um personagem ilusório e em se conduzir de acordo com ele. Encontramo-nos então diante de uma série variada de manifestações que tem como característica comum apoiar-se no fato de o sujeito simular crer, fazer crer a si próprio ou fazer com que os outros creiam que é um outro diferente de si mesmo. Esquece, dissimula, despoja-se passageiramente de sua personalidade para fingir uma outra. O termo escolhido para designar tais manifestações foi mimicry, que nomeia em inglês o mimetismo, principalmente dos insetos, para ressaltar a natureza fundamental e elementar, quase orgânica, do impulso que as suscita.

O mundo dos insetos surge diante do mundo humano como a solução mais divergente oferecida pela natureza. Ele é milimetricamente o contrário do mundo do homem, mas não é menos elaborado, complexo e surpreendente. Por isso me parece legítimo considerar aqui os fenômenos de mimetismo cujos exemplos mais perturbadores são apresentados pelos insetos. Com efeito, a uma conduta livre do homem, versátil, arbitrária, imperfeita e que, sobretudo, resulta em uma obra exterior, corresponde no animal, e mais particularmente no inseto, a uma modificação orgânica, fixa, absoluta, que marca
a espécie e que é infinita e exatamente reproduzida de geração em geração nos bilhões de seres; por exemplo, as castas de formigas e de cupins diante da luta de classes, os desenhos das asas das borboletas diante da história da pintura. Por menos que se admita essa hipótese, sobre cuja imprudência não nutro qualquer ilusão, o inexplicável mimetismo dos insetos fornece de repente uma extraordinária réplica ao prazer do homem em se disfarçar, em se travestir, em usar uma máscara, em representar um personagem.
Mas desta vez a máscara, o travestir-se faz parte do corpo, em lugar de ser um acessório fabricado. Nos dois casos, porém, serve exatamente aos mesmos fins: mudar a aparência do portador e assustar os outros.
Nos vertebrados, a tendência para imitar se traduz primeiro por um contágio bem físico, quase irresistível, análogo ao contágio do bocejamento, da corrida, da claudicação, do sorriso e, sobretudo, do movimento. Hudson considera possível afirmar que espontaneamente um animal jovem “segue qualquer objeto que se distancia, foge de qualquer objeto que se aproxima”, a tal ponto que um cordeiro salta e foge quando sua mãe retorna e anda em sua direção, sem reconhecê-la, enquanto segue o passo do homem, do cão, do cavalo, que vê se distanciar. Contágio e imitação ainda não são simulacro, mas o tornam possível e dão origem à ideia, ao prazer da mímica. Nos pássaros, essa tendência resulta nas paradas nupciais, nas cerimônias e exibições vaidosas às quais, de acordo
com o caso, machos e fêmeas se entregam com uma rara aplicação e um evidente prazer. Quanto aos caranguejos oxyrhynchus, que colocam sobre sua carapaça toda alga ou pólipo que podem pegar, sua aptidão ao disfarce, qualquer que seja a explicação que receba, não deixa dúvidas.
Mímica e disfarce são assim os impulsos complementares desta classe de jogos. Na criança, trata-se primeiro de imitar o adulto. Por isso o sucesso dos acessórios e dos jogos em miniatura que reproduzem ferramentas, armas e máquinas de que se servem os adultos. A menina brinca de mamãe, de cozinheira, de lavadeira, de passadeira; o menino finge ser um soldado, um mosqueteiro, um agente de polícia, um pirata, um caubói, um marciano etc. Faz um avião estendendo os braços e reproduzindo o barulho do motor. Mas as condutas de mimicry transbordam da infância para a vida adulta.
Cobrem igualmente qualquer divertimento ao qual nos dedicamos, mascarado ou disfarçado, e que consiste no próprio fato de que o jogador está mascarado ou disfarçado, e em suas consequências. Por fim, está claro que a representação teatral e a interpretação dramática entram por direito neste grupo.
O prazer é de ser outro ou de se fazer passar por um outro. Mas, como se trata de um jogo, a questão não é essencialmente de enganar o espectador. A criança que brinca
de trem pode muito bem recusar o beijo de seu pai dizendo-lhe que não beijamos as locomotivas, mas não procura convencê-lo de que é uma verdadeira locomotiva. No Carnaval, a máscara não procura fazer com que os outros acreditem que aquele é um verdadeiro marquês, um verdadeiro toureador, um verdadeiro pele-vermelha, mas procura assustar e se beneficiar da liberdade reinante, ela mesma resultado do fato de a máscara dissimular o personagem social e libertar a personalidade verdadeira. O ator também não procura fazer crer que ele é “realmente” Lear ou Carlos V. São o espião e
o fugitivo que se disfarçam para enganar realmente, porque, quanto a estes, não estão representando.
Como atividade, imaginação, interpretação, a mimicry não poderia ter relação com a alea, que impõe ao jogador a imobilidade e a ansiedade da espera, mas não se des-
carta que se componha com o agôn. Não estou pensando nos concursos de fantasias nos quais a aliança é completamente exterior. Uma cumplicidade mais íntima se deixa
facilmente revelar. Para aqueles que não participam, todo agôn é um espetáculo. Mas é um espetáculo que, para ser válido, exclui o simulacro. As grandes manifestações esportivas não deixam de ser ocasiões privilegiadas de mimicry, por mais que nos lembremos de que o simulacro é transferido dos atores aos espectadores: não são os atletas que imitam, mas sim o público. Até mesmo a simples identificação com o campeão já constitui uma mimicry análoga àquela que faz o leitor se reconhecer no herói do romance e o espectador nos heróis do filme. Para se convencer disso basta considerar a função perfeitamente simétrica do campeão e da estrela, que terei a ocasião de retomar de maneira mais explícita. Os campeões, triunfadores do agôn, são as estrelas das reuniões esportivas. As estrelas, ao contrário, são as vencedoras de uma competição difusa cujo desafio é a consideração popular. Uns e outros recebem uma correspondência abundante, dão entrevistas para uma imprensa ávida, assinam autógrafos.
De fato, a corrida de bicicleta, o boxe ou a luta livre, a partida de futebol, de tênis ou de polo constituem em si espetáculos com vestuário, abertura solene, liturgia apropriada,
desenrolamento regrado. Em uma palavra, são dramas cujas diferentes peripécias mantêm o público em suspense e resultam em um desfecho que exalta uns e decepciona
outros. A natureza desses espetáculos permanece a de um agôn, mas aparece com as características exteriores de uma representação. Os espectadores não se contentam em encorajar com gritos e gestos o esforço dos atletas de sua preferência, ou então, no hipódromo, o dos cavalos de sua escolha. Um contágio físico leva-os a esboçar a atitude dos homens ou dos animais para ajudá-los, do modo como sabemos que um jogador de boliche inclina seu corpo imperceptivelmente na direção que desejaria que a pesada bola tomasse no fim de seu percurso. Nessas condições, além do espetáculo, nasce, no meio do público, uma competição por mimicry, que multiplica o agôn verdadeiro do terreno ou da pista.
Com uma única exceção, a mimicry apresenta todas as características do jogo: liberdade, convenção, suspensão do real, espaço e tempo delimitados. Todavia, não se verifica a submissão contínua às regras imperativas e precisas. Como vimos, a dissimulação da realidade, a simulação de uma outra realidade ocorrem ali. A mimicry é invenção incessante. A regra do jogo é uma só: para o ator, consiste em fascinar o espectador, evitando que um erro o leve a recusar a ilusão; para o espectador, consiste em se entregar à ilusão sem recusar desde o primeiro instante o cenário, a máscara, o artifício no qual é convidado a acreditar, por um determinado tempo, como um real mais real do que o real.

ILINX

Uma última categoria de jogos reúne aqueles que se baseiam na busca da vertigem e que consistem em uma tentativa de destruir por um instante a estabilidade da percepção e de infligir à consciência lúcida uma espécie de pânico voluptuoso. De todo modo, trata-se de aceder a uma espécie de espasmo, de transe ou de aturdimento que destrói a realidade com uma soberana brusquidão.

É bastante comum que a desordem provocada pela vertigem seja buscada por ela mesma. Cito como exemplo apenas os exercícios dos dervixes rodopiantes e os dos voladores mexicanos. A escolha é proposital, pois os primeiros se aproximam, pela técnica empregada, de certos jogos infantis, ao passo que os segundos evocam mais os recursos refinados da acrobacia e do contorcionismo, e dessa forma abrangem os dois polos dos jogos de vertigem. Os dervixes buscam o êxtase girando sobre si mesmos, segundo um movimento acelerado pelos batimentos de tambor cada vez mais rápidos. O pânico
e a hipnose da consciência são atingidos pelo paroxismo de uma rotação frenética contagiosa e compartilhada. No México, os voladores – huastecas ou totonaques – içam-se ao topo de um mastro com uma altura de vinte a trinta metros. As falsas asas pendidas em seus punhos os fantasiam de águias. Pela cintura prendem-se à extremidade de uma corda. Esta passa então entre seus dedos dos pés para que possam realizar a descida completa com a cabeça para baixo e os braços afastados. Antes de chegar ao chão, realizam várias voltas completas – treze, segundo Torquemada – descrevendo uma espiral que vai se alargando. A cerimônia, que compreende vários voos e começa ao meio-dia, pode ser facilmente interpretada como uma dança do pôr do sol, acompanhada por pássaros, mortos divinizados. A frequência dos acidentes levou as autoridades mexicanas a proibir este perigoso exercício.

É praticamente dispensável, aliás, invocar esses exemplos raros e famosos. Qualquer criança também conhece, ao girar rapidamente sobre si mesma, o meio de aceder a um estado centrífugo de fuga e de escape, em que o corpo sente dificuldade para reencontrar seu equilíbrio e a percepção de sua nitidez. Certamente a criança o faz pela brincadeira e se diverte. Assim é o rodopio, um jogo em que ela gira sobre um calcanhar o mais rápido que consegue. O jogo haitiano do milho de ouro é quase idêntico: duas crianças se seguram pela mão, uma diante da outra, com os braços estendidos. Com o corpo rígido e inclinado para trás, os pés juntos e de frente um para o outro, giram até perder o fôlego pelo prazer de titubear depois de pararem. Gritar bem alto, descer uma ladeira, o tobogã, o carrossel, caso gire bastante rápido, o balanço, caso se eleve bem alto, oferecem sensações análogas.

Também são provocadas sensações por procedimentos físicos variados: a acrobacia, a queda ou a projeção no espaço, a rotação rápida, o escorrega, a rapidez, a aceleração de um movimento retilíneo ou sua combinação com um movimento giratório. Paralelamente, existe uma vertigem de ordem moral, um arrebatamento que de repente toma o indivíduo. Essa vertigem se casa facilmente com o gosto normalmente reprimido da desordem e da destruição. Traduz formas grosseiras e brutais da afirmação da personalidade. Nas crianças, constatamos isso durante os jogos como o corre-cutia, o pula-sela que, subitamente, precipitam-se e descambam para a simples confusão. Nos adultos, nada é mais revelador nesse campo do que a estranha excitação que continuam a experimentar quando, com uma vara, ceifam as flores mais altas de um descampado ou quando derrubam em avalanche a neve de um telhado, ou ainda a embriaguez que começam a conhecer nas barracas das festas populares ao estilhaçarem, por exemplo, de forma ruidosa, montes de louça sem valor.

Para cobrir as diversas variedades deste transporte, que é ao mesmo tempo uma agitação ora orgânica, ora psíquica, proponho o termo ilinx, palavra grega para turbilhão de água, do qual deriva precisamente, na mesma língua, a palavra vertigem (illingos).

Este prazer, assim como os outros, não é privilégio do homem. É pertinente então evocar a tontura de certos mamíferos, especialmente dos carneiros. Mesmo que esta seja uma manifestação patológica, é demasiado significativa para não ser mencionada. No entanto, não faltam exemplos em que esta característica de jogo é evidente. Os cães giram sobre si mesmos para pegar sua cauda, até que caem. Outras vezes são tomados por uma excitação de correr que só os abandona quando esgotados. Os antílopes, as gazelas, os cavalos selvagens são frequentemente tomados por um pânico que não corresponde a nenhum perigo real, nem mesmo a um arremedo de perigo, e que traduz mais o efeito de um imperioso contágio e de uma complacência imediata para a ele se entregar.

Os ratos de água se divertem rolando sobre si mesmos, como se fossem levados pelos remoinhos da corrente. O caso das camurças é ainda mais extraordinário. Segundo Karl Groos, elas sobem nos montes de neve e então uma por vez toma impulso e desliza ao longo de uma rampa abrupta, enquanto as outras a observam.

Este prazer, assim como os outros, não é privilégio do homem. É pertinente então evocar a tontura de certos mamíferos, especialmente dos carneiros. Mesmo que esta seja uma manifestação patológica, é demasiado significativa para não ser mencionada. No entanto, não faltam exemplos em que esta característica de jogo é evidente. Os cães giram sobre si mesmos para pegar sua cauda, até que caem. Outras vezes são tomados por uma excitação de correr que só os abandona quando esgotados. Os antílopes, as gazelas, os cavalos selvagens são frequentemente tomados por um pânico que não corresponde a nenhum perigo real, nem mesmo a um arremedo de perigo, e que traduz mais o efeito de um imperioso contágio e de uma complacência imediata para a ele se entregar.

Os ratos de água se divertem rolando sobre si mesmos, como se fossem levados pelos remoinhos da corrente. O caso das camurças é ainda mais extraordinário. Segundo Karl Groos, elas sobem nos montes de neve e então uma por vez toma impulso e desliza ao longo de uma rampa abrupta, enquanto as outras a observam.

O gibão escolhe um galho flexível, curva-o com seu peso até que se distenda e o projete nos ares. Segura-se como pode e recomeça infindavelmente este exercício inútil que só sua sedução íntima pode explicar. Mas os amantes de jogos de vertigem são, sobretudo, os pássaros. Deixam-se cair, como uma pedra, de uma grande altura, e só abrem as asas a alguns metros do chão, dando a impressão de que vão se espatifar. 

Depois remontam e mais uma vez se deixam cair. Na época do acasalamento, utilizam este voo de proeza para seduzir a fêmea. O falcão noturno da América, descrito por Audubon, é um amante virtuoso desta impressionante acrobacia.

Os homens, depois do rodopio, do milho de ouro, do escorrega, do carrossel e do balanço, têm a sua disposição os efeitos da embriaguez e de várias danças, desde o turbilhão mundano, mas insidioso, da valsa, até as inúmeras gesticulações desvairadas, trepidantes, convulsivas. Vivenciam um prazer análogo à euforia provocada por uma extrema velocidade, assim como sentida, por exemplo, nos esquis, na motocicleta ou em um carro conversível. Para dar a essa espécie de sensações a intensidade e a brutalidade capazes de aturdir os organismos adultos, tivemos de inventar maquinários potentes. 

Não surpreende, portanto, o fato de muitas vezes ter sido necessário esperar a idade industrial para que a vertigem se tornasse verdadeiramente uma categoria do jogo, sendo agora
oferecida a uma multidão ávida por meio de mil aparelhos implacáveis, instalados nas festas populares e nos parques de diversão.

Essas máquinas, evidentemente, iriam além de seu objetivo, se este fosse apenas enlouquecer os órgãos do ouvido interno, do qual depende o sentido do equilíbrio. Mas é oferecida a uma multidão ávida por meio de mil aparelhos implacáveis, instalados nas festas populares e nos parques de diversão.

Essas máquinas, evidentemente, iriam além de seu objetivo, se este fosse apenas enlouquecer os órgãos do ouvido interno, do qual depende o sentido do equilíbrio. Mas é todo o corpo que está submisso a tratamentos tais que cada um de nós sentiria medo se não visse os outros se atropelando para neles subir. De fato, vale a pena observar a saída das pessoas dessas máquinas de vertigem. Devolvem seres pálidos, cambaleantes,
no limite da náusea, que acabam de gritar aterrorizados, pois tiveram o fôlego cortado e sentiram a terrível impressão de que, no interior deles mesmos, até seus órgãos sentiram medo e se encolheram como para escapar ao horrível assalto. No entanto, antes mesmo de terem se acalmado, a maioria deles corre ao guichê para comprar o direito de experimentar mais uma vez o mesmo suplício, do qual esperam um regozijo.

É preciso dizer regozijo, pois hesitamos em nomear como distração esse tipo de transporte, que se aparenta mais ao espasmo do que ao divertimento. Por outro lado, é importante observar que a violência do choque sentido é tal que os proprietários dos aparelhos se esforçam, nos casos extremos, para atrair os ingênuos com a gratuidade da atração. Anunciam de forma enganosa que, “mais uma vez”, ela não custa nada, quando é assim sistematicamente. Em contrapartida, fazem com que os espectadores paguem seu privilégio de observar tranquilamente do alto de uma galeria as angústias das vítimas consentintes ou surpresas, expostas às forças terríveis ou a estranhos caprichos.

Seria arriscado tirar conclusões demasiado precisas a respeito dessa curiosa e cruel repartição dos papéis. Essa não é característica de uma espécie de jogo somente, mas encontra-se no boxe, na luta livre e nos combates de gladiadores. O essencial reside aqui na busca dessa desordem específica, desse pânico momentâneo definido pelo termo vertigem e pelas indubitáveis características de jogo que a ele se encontram associadas: liberdade de aceitar ou de recusar a prova, limites estritos e imutáveis, separação do resto da realidade. Que, além disso, a prova ofereça também o espetáculo não diminui, mas reforça sua natureza de jogo.

Fonte: CAILLOIS, R. Os jogos e os homens. 2017