Página destinada à divulgar exercícios filosóficos na "Escola Estadual Antônio Eufrásio de Toledo" na disciplina de Filosofia, ministrada pelo Professor José Geraldo
1) Bertrand Russell conta a história de um peru que descobrira, em sua primeira manhã na fazenda de perus, que fora alimentado às 9 da manhã. Contudo, ele não tirou conclusões apressadas. Esperou até recolher um grande número de observações do fato de que era alimentado às 9 da manhã e fez essas observações sob uma ampla variedade de circunstâncias, às quartas e quintas-feiras, em dias quentes e dias frios, em dias chuvosos e dias secos. A cada dia acrescentava uma outra proposição de observação à sua lista. Finalmente, sua consciência ficou satisfeita e ele concluiu. “Eu sou alimentado sempre às 9 da manhã”.
CHALMERS, A. O que é ciência, afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993 (adaptado).
Qual tipo de raciocínio corresponde ao padrão de pensamento exibido pelo personagem do texto?
A - Prático, porque recolhe evidências e recomenda ações. B - Absoluto, porque busca confirmações e bloqueia refutações. C - Indutivo, porque observa eventos particulares e infere leis universais. D - Demonstrativo, porque encadeia premissas e extrai conclusões indubitáveis. E - Analógico, porque compara diferentes situações e detecta elementos semelhantes
2) Resumamos os principais caracteres de um rizoma: diferentemente das árvores ou de suas raízes, o rizoma conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer e cada um de seus traços não remete necessariamente a traços de mesma natureza. Contra os sistemas centrados (e mesmo policentrados), de comunicação hierárquica e ligações preestabelecidas, o rizoma é um sistema a-centrado não hierárquico e não significante, sem general, sem memória organizadora ou autômato central, unicamente definido por uma circulação de estados.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. São Paulo: Editora 34, 1995 (adaptado).
Qual elemento da cultura contemporânea se relaciona às características do conceito de rizoma, conforme descrito no texto?
3) A pessoa com deficiência de qualquer modalidade — seja visual, auditiva, física ou mental — encontra-se em uma posição de grande vulnerabilidade em relação às pessoas sem deficiência, sendo frequentemente marcante a assimetria das relações de poder na interação entre ambas. Tal assimetria de relação hierárquica é multiplicada conforme a severidade de cada caso, sendo ampliada se a pessoa com necessidades especiais pertencer a um outro grupo de risco, por exemplo, se for mulher ou criança.
PASIAN, M. S. A negligência parental e a relação com a deficiência: o que mostra a pesquisa nacional. Revista Educação Especial, n. 53, set.-dez. 2015 (adaptado).
A realidade abordada no texto indica a necessidade de se promover uma ética interpessoal centrada no
A) cuidado, proteção e valorização dos indivíduos.
B) entendimento, perdão e tolerância dos responsáveis.
C) cerceamento, arregimentação e controle de entidades.
D) regramento, legislação e responsabilização de culpados.
E) ensimesmamento, interiorização e indulgência dos agentes.
4) Os grupos dominantes são beneficiados em termos de credibilidade e podem, com isso, controlar falas de membros de outros grupos, descredibilizando seus testemunhos com base em concepções compartilhadas de preconceito de identidade (gênero e raça). Algumas formas de preconceito tornam as declarações das pessoas menos importantes devido ao seu pertencimento a determinado grupo social. Assim, um falante recebe menos credibilidade devido ao preconceito do ouvinte.
KUHNEN, T. Resenha de The Power and Ethics of Knowing, de Miranda Fricker. Revista Princípios, n. 33, 2013.
Com base na reflexão suscitada no texto, o preconceito de identidade é responsável por um tipo de injustiça
A - estética, que normatiza os padrões corporais.
B - sensorial, que privilegia as habilidades visuais.
C - afetiva, que impede as expressões emocionais.
D - epistêmica, que prejudica as trocas informacionais
E - econômica, que perpetua as desigualdades materiais.
5) A alma funciona no meu corpo de maneira maravilhosa. Nele se aloja, certamente, mas sabe bem dele escapar: escapa para ver as coisas através da janela dos meus olhos, escapa para sonhar quando durmo, para sobreviver quando morro. Minha alma durará muito tempo e mais que muito tempo, quando meu corpo vier a apodrecer. Viva minha alma! É meu corpo luminoso, purificado, virtuoso, ágil, móvel, tépido, viçoso; é meu corpo liso, castrado, arredondado como uma bolha de sabão.
FOUCAULT, M. O corpo utópico, as heterotopias. São Paulo: Edições N-1, 2013.
Esse texto reforça uma concepção metafísica clássica que remete a um(a)
6) Teses: 1. Somente os enunciados que possuem conteúdo factual são teoricamente significativos; enunciados que não podem, em princípio, estar fundamentados pela experiência são carentes de significado. 2. As ciências empíricas usam somente o conteúdo empírico da realidade. 3. A filosofia usa um conceito não empírico da realidade.
CARNAP, R. Pseudoproblemas na filosofia. In: SCHLICK, M.; CARNAP, R.; POPPER, K. Coletânea de textos. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
7) A regra de ouro, popularmente conhecida pelo provérbio “Trate os outros como gostaria de ser tratado”, é um dos princípios morais mais onipresentes. A noção subjacente, que apela para o senso ético mais básico, se expressa de uma forma ou de outra em praticamente todas as tradições religiosas, e poucos filósofos morais deixaram de invocar a regra ou pelo menos de tecer comentários a respeito da relação com seus próprios princípios.
DUPRÉ, B. 50 grandes ideias da humanidade. São Paulo: Planeta do Brasil, 2016.
Aristóteles entendia que a felicidade era diretamente ligada ao respeito pela própria natureza e, de certa maneira, a uma vida que tivesse na natureza de si mesma uma referência inabalável. Isso lhe permitiu formular o conceito de excelência. O que seria excelência? Seria, justamente, ao longo da vida, tirar de si mesmo, em forma de performance, de conduta, de comportamento, de disposição, o que a natureza permitiria de melhor.
COEN, M.; BARROS FILHO, C. A monja e o professor: reflexões sobre ética, preceitos e valores. Rio de Janeiro: Best Seller, 2018.
TEXTO II
A noção de eudaimonia é central para a ética aristotélica. A eudaimonia é uma atividade e não um estado psicológico, pois é definida na Ética a Nicômaco como uma atividade da alma com base na virtude moral. A virtude moral é definida em termos de uma disposição diretamente ligada à deliberação, o que o leva a estudar a virtude intelectual que opera em seu interior, isto é, a prudência. A estrutura conceitual da ética aristotélica responde a uma tentativa de elucidar conceitualmente em que consiste isto, agir bem, ou, na linguagem aristotélica, o que significa ser feliz.
ZINGANO, M. Eudaimonia, razão e contemplação na ética aristotélica. Analytica, n. 1, 2017 (adaptado).
Os textos indicam que a prática de ações virtuosas, sempre efetivada na pólis, ocorre por meio do(a)
9) Uma das principais atividades provocadas pela arte, a reflexão, é abandonada pela indústria cultural. A indústria cultural seria como uma isca que ilude os indivíduos, com o sonho de que eles são livres, originais, únicos e especiais quando, na verdade, os trata como servos e partes de uma massa homogênea.
FONTES, B.; MAGALHÃES, R. O que é indústria cultural? In: BODART, C. N. (Org.). Conceitos e categorias do ensino de sociologia. Maceió: Café com Sociologia, 2021 (adaptado)
Ao analisar as consequências da dinâmica apresentada no texto, as autoras destacam a importância do conceito como:
A Ferramenta de luta coletiva.
B Mecanismo de controle social.
C Instituição de interesse público.
D Organização da iniciativa privada.
E Instrumento de manipulação estatal.
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Eu sentia falta do futuro. É claro que eu sabia, muito mesmo antes da recorrência dele, que nunca envelheceria. Era muito provável que eu nunca mais fosse ver o oceano de uma altura de trinta mil pés de novo, uma distância tão grande que não dá nem para distinguir as ondas, nem nenhum barco, de um jeito que faz o oceano parecer um enorme e infinito monólito. Eu poderia imaginá-lo. Eu poderia me lembrar dele. Mas não poderia vê-lo de novo, e me ocorreu que a ambição voraz dos seres humanos nunca é saciada quando os sonhos são realizados, porque há sempre a sensação de que tudo poderia ter sido feito melhor e ser feito outra vez.
GREEN, J. A culpa é das estrelas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012.
O texto apresenta uma reflexão da personagem acerca de um problema característico da filosofia contemporânea, que trata da(s)
Hoje, na aula noturna com o segundo ano do ensino médio sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, partimos da discussão sobre a barbárie do Holocausto — genocídio ou assassinato em massa de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial — e chegamos, por associação, ao Holocausto Urbano, título do primeiro EP dos Racionais MC’s, lançado em 1990. Em pauta, o extermínio de jovens negros das periferias, a exploração do trabalho, a miséria e a fome — em suma, o holocausto urbano vivido por milhões de pobres no Brasil.
"Todas as três atividades e suas condições correspondentes estão intimamente relacionadas com a condição mais geral da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. O trabalho assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie. A obra e seu produto, o artefato humano, conferem uma medida de permanência e durabilidade à futilidade da vida mortal e ao caráter efêmero do tempo humano. A ação, na medida em que se empenha em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a história. O trabalho e a obra, bem como a ação, estão também enraizados na natalidade, na medida em que têm a tarefa de prover e preservar o mundo para o constante influxo de recém-chegados que nascem no mundo como estranhos, além de prevê-los e levá-los em conta. Entretanto, das três atividades, a ação tem a relação mais estreita com a condição humana da natalidade; o novo começo inerente ao nascimento pode fazer-se sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo, isto é, de agir. Nesse sentido de iniciativa, a todas as atividades humanas é inerente um elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disso, como a ação é a atividade política por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode ser a categoria central do pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico. (Arendt, 2010).
Trabalho, obra e ação ligados à vida humana
Trabalho: garante a sobrevivência biológica, tanto individual quanto da espécie (alimentação, reprodução, manutenção da vida).
Obra: cria permanência no mundo (construções, arte, objetos duráveis) e dá estabilidade diante da fugacidade da vida.
Ação: funda e preserva corpos políticos, ou seja, cria história e memória coletiva, ultrapassando a mera sobrevivência.
Natalidade e mortalidade
Para a filosofia clássica e metafísica, a mortalidade sempre foi o eixo: o humano seria aquele que pensa e age à sombra da morte.
Arendt inverte: o centro da política não é a morte, mas o nascimento (natalidade).
Isso porque cada ser humano que nasce traz a possibilidade de um novo começo, uma iniciativa inédita.
Ação como expressão da natalidade
Ação é a única atividade que expressa diretamente a natalidade: cada pessoa, ao entrar no mundo, pode iniciar algo novo.
É justamente isso que torna a política possível — não a repetição do mesmo, mas a abertura para o inesperado e para o inédito que surge com cada novo ser humano.
👉 Em resumo: Arendt está dizendo que o verdadeiro motor da política não é a finitude (como em muitos filósofos que pensaram o humano a partir da morte), mas a natalidade: a capacidade de começar algo novo, de agir, de fundar. A política, então, é a arte dos começos, não do fim.
Akira e Nick Land: técnica, poder e dissolução do sujeito
O anime Akira (1988), de Katsuhiro Otomo, é uma das obras mais emblemáticas do imaginário cyberpunk, retratando uma sociedade em decomposição, marcada pela violência urbana e por mutações tecno-científicas incontroláveis.
Uma das discussões filosóficas que Akira suscita diz respeito ao risco de produções da tecnociência adquirirem autonomia, passando a agir por “vontade própria” e colocando em risco o destino humano e planetário.
Esse perigo se manifesta através do jovem estudante Tetsuo, que ao despertar poderes psíquicos — resultado de experimentos laboratoriais conduzidos por um governo autoritário — passa a agir sem refletir sobre as consequências de seus atos. Sua ambição é, a qualquer custo, compreender e controlar o poder de Akira, outra criança objeto de experimentos psíquicos que causou destruição em escala catastrófica no passado1.
A filosofia de Martin Heidegger já alertava, em meados do século XX, para o perigo da técnica moderna: quando esta não é apenas instrumento, mas força autônoma que reconfigura a existência humana, tornando o ser humano um simples recurso2. Algo semelhante ocorre com Tetsuo — e, anteriormente, com o próprio Akira. O despertar de poderes psíquicos não resulta de uma escolha ou invenção consciente, mas de processos tecno-científicos que escapam ao controle de seus criadores, revelando a dimensão incontrolável da técnica3.
Sob essa perspectiva, o filme permite refletir sobre o risco de a tecnociência, em mãos autoritárias e inescrupulosas, gerar uma singularidade que, fora de controle, provoque a destruição do planeta como o conhecemos e, inevitavelmente, da própria humanidade.
Na maior parte de Akira, há o risco iminente de uma catástrofe ainda mais aterrorizante do que a que arrasou Tóquio no início da narrativa voltar a acontecer em Neo-Tóquio, desta vez protagonizada por Tetsuo.
Poder
Em paralelo ao perigo representado pela técnica fora de controle, está o tema do poder. Em Akira, ele é desejado por todos. O Coronel, em nome da “ordem e do progresso”, busca conter Tetsuo para impedir que a tragédia provocada por Akira no passado se repita4.
Já o Conselho — de viés autoritário e possivelmente fascista — deseja destruir Neo-Tóquio, que consideram “irrecuperável”5. Nesse projeto de destruição purificadora, enxergam em Tetsuo um instrumento útil para alcançar seus objetivos, mesmo que isso implique risco massivo de destruição.
Diferentemente do Conselho golpista, o Coronel adota uma perspectiva “restauradora”, voltada à preservação da vida, mas não de toda vida em sua complexidade, e sim apenas das formas compatíveis com os moldes militares e positivistas de uma ordem ideal6.
Por fim, o próprio Tetsuo, em oposição tanto ao Coronel quanto ao Conselho, busca compreender e ampliar o poder que possui, poder esse que, no limite, excede os contornos da própria humanidade, projetando-o em direção a uma singularidade pós-humana7.
Aceleração, colapso e o inumano
Por trás da narrativa de Neo-Tóquio e da ascensão de Tetsuo, pode-se ler uma filosofia implícita que dialoga com o pensamento do filósofo inglês Nick Land, sobretudo em sua fase ligada ao CCRU (Cybernetic Culture Research Unit), em que a aceleração, a dissolução da subjetividade e a catástrofe planetária eram categorias centrais8.
Em Akira, o poder que desperta em Tetsuo representa uma energia que não pode ser domada. O jovem, inicialmente frágil e marcado pela sensação de inferioridade diante do amigo e rival Kaneda, tem suas habilidades psíquicas ativadas após o contato com Takashi, um dos “espers” — crianças artificialmente envelhecidas como resultado de experimentos militares9. A partir desse despertar, Tetsuo é monitorado e testado pelo exército, mas o que parecia um ganho de potência logo se transforma em perda de identidade: seu corpo cresce, se deforma, se funde com metal e se expande até quase colapsar10. Ele já não é um indivíduo, mas um processo de mutação incontrolável. Nick Land expressa essa mesma dinâmica ao afirmar que “o humano é apenas um remanso transitório em um fluxo de desintegração tecno-capitalista” (Fanged Noumena, p. 443). Tetsuo deixa de ser pessoa: torna-se veículo de um processo que o ultrapassa.
No clímax do anime, Tetsuo perde totalmente o controle de seus poderes, atingindo um estado de fusão com energia psíquica que ameaça engolir Neo-Tóquio. Em meio à catástrofe iminente, a consciência de Akira desperta e intervém, absorvendo parte dessa energia incontrolável. Akira cria um novo espaço, aparentemente fora do tempo e do espaço, onde Tetsuo sobrevive, mas transformado — seu corpo e consciência permanecem em um estado indefinido, sugerindo que ele ultrapassou os limites da humanidade. A cidade é destruída, mas Kaneda, junto com outros sobreviventes, observa o surgimento de uma nova realidade que permanece misteriosa11. Esse final ilustra a ideia landiana de que o colapso não é apenas destruição, mas abertura para um novo nível de existência inumana, em que o humano se torna apenas uma passagem.
Para Land, o capitalismo não é um sistema econômico sujeito ao domínio humano, mas uma máquina autônoma de aceleração, que intensifica fluxos técnicos, informacionais e energéticos além de qualquer limite. Em suas palavras: “o capitalismo é uma inteligência alienígena que se alimenta do humano apenas para ir além dele” (Machinic Desire, p. 338). O poder de Tetsuo, que cresce exponencialmente até escapar a qualquer tentativa de contenção, é metáfora desse processo. Nem as instituições militares, nem a ciência, nem os laços de amizade conseguem frear sua escalada. O incontrolável se torna destino.
Esse destino, no entanto, não é apenas abolição absoluta. Tanto em Land quanto em Akira, o apocalipse é produtivo: ele abre caminho para outra realidade, ainda que inumana. A explosão de Neo-Tóquio não é mero fim, mas início de um novo estágio da existência, marcado por uma energia que não se reduz à vida humana. Land insiste que “a catástrofe não é uma interrupção, mas a forma própria da inteligência em sua fuga” (Meltdown, p. 442). Assim, o despertar de Akira e a implosão final sugerem a passagem para um além, um desconhecido que não se deixa traduzir em termos de continuidade histórica.
Do ponto de vista estético, Akira encarna aquilo que Land descreve como a fascinação pelo horror e pelo grotesco. A carne mutante, os corpos em expansão, o metal fundido com tecido vivo são imagens do devir inumano. Em Land, essa estética não é incidental, mas estruturante: “o horror é apenas a percepção humana daquilo que escapa ao humano” (The Thirst for Annihilation, p. 150). O excesso é, portanto, o regime que expressa a aceleração em seu ponto máximo. O colapso deixa de ser um acidente a ser evitado e se torna um acontecimento inevitável, quase desejável, pois apenas nele o novo se anuncia.
Conclusão
Akira, portanto, pode ser visto como uma imagem especular da aceleração teorizada pela filosofia landiana. Tetsuo representa a dissolução do sujeito em meio à intensificação dos processos técnicos e científicos. Neo-Tóquio representa a modernidade incapaz de controlar a técnica que engendrou. E a explosão final simboliza o próprio gesto landiano: a aposta de que o futuro não é humano, mas inumano; no lugar da estabilidade, o colapso; no lugar do equilíbrio, a mutação incessante.
Técnica, tecnologia, tecnociência, poder, humanidade e pós-humanidade são questões que Akira inspira a pensar, de grande relevância para uma filosofia que não se pretende apenas comentário sobre o passado, mas compreensão deste em conexão com uma crítica viva da contemporaneidade — momento em que se discutem os limites éticos das pesquisas com inteligência artificial, o colapso planetário, o fim do humano e a emergência da singularidade pós-humana.
Notas:
A destruição inicial de Tóquio e o poder de Akira são revelados em flashbacks e registros científicos dentro do anime. ↩
Heidegger, A Questão da Técnica, discute a autonomia da técnica e a redução do humano a recurso. ↩
O despertar de Tetsuo ocorre após contato com Takashi, e sua evolução de poder foge do controle militar. ↩
Episódios em que o Coronel persegue Tetsuo, enfatizando a necessidade de contenção dos poderes psíquicos. ↩
O Conselho militar considera Neo-Tóquio irrecuperável e planeja medidas extremas de “purificação”. ↩
O Coronel protege Tetsuo não por ética universal, mas pela lógica militar de ordem e controle. ↩
A fusão de Tetsuo com energia psíquica no clímax do anime. ↩
Land, Nick. Fanged Noumena e Meltdown; categorias de aceleração, catástrofe e dissolução do sujeito. ↩
A ativação de poderes psíquicos em Tetsuo é ilustrada no contato inicial com os espers. ↩
As mutações físicas de Tetsuo são explícitas nos últimos atos do filme, enfatizando a perda de humanidade. ↩
Final do anime: Tetsuo sobrevivendo em uma dimensão indefinida, Neo-Tóquio destruída, Kaneda observando — expressão da passagem para o inumano. ↩
1) O que a imagem sugere sobre a comunicação entre as pessoas?
2) Como ela pode representar um conflito de discursos? (Dica: Observe os pequenos sujeitos puxando uma corda entre os rostos. Quem está em disputa? Pelo quê?).
3)Na sociedade atual quem você acha que tem mais poder para influenciar a sociedade?
4) Na imagem, os rostos são compostos por circuitos e engrenagens. O que isso pode simbolizar em relação à influência das tecnologias, como as redes sociais, na formação?
5) A imagem mostra um esforço coletivo (ou disputa) entre os dois lados. Você já presenciou ou vivenciou situações em que diferentes grupos disputavam narrativas?
6) Imagine que cada lado da imagem represente uma "doutrina" (religiosa, política, ideológica). Como essas doutrinas influenciam o modo como as pessoas falam, pensam e se relacionam umas com as outras?
Se a linguagem pode servir à dominação ela pode servir para produzir "exclusão". Apresente um exemplo de uso da linguagem que produz exclusão e uma ação para que esse efeito negativo da linguagem deixe de ocorrer na sociedade.