quarta-feira, 17 de setembro de 2025

AKIRA

Akira e Nick Land: técnica, poder e dissolução do sujeito

O anime Akira (1988), de Katsuhiro Otomo, é uma das obras mais emblemáticas do imaginário cyberpunk, retratando uma sociedade em decomposição, marcada pela violência urbana e por mutações tecno-científicas incontroláveis.

Uma das discussões filosóficas que Akira suscita diz respeito ao risco de produções da tecnociência adquirirem autonomia, passando a agir por “vontade própria” e colocando em risco o destino humano e planetário.

Esse perigo se manifesta através do jovem estudante Tetsuo, que ao despertar poderes psíquicos — resultado de experimentos laboratoriais conduzidos por um governo autoritário — passa a agir sem refletir sobre as consequências de seus atos. Sua ambição é, a qualquer custo, compreender e controlar o poder de Akira, outra criança objeto de experimentos psíquicos que causou destruição em escala catastrófica no passado1.

A filosofia de Martin Heidegger já alertava, em meados do século XX, para o perigo da técnica moderna: quando esta não é apenas instrumento, mas força autônoma que reconfigura a existência humana, tornando o ser humano um simples recurso2. Algo semelhante ocorre com Tetsuo — e, anteriormente, com o próprio Akira. O despertar de poderes psíquicos não resulta de uma escolha ou invenção consciente, mas de processos tecno-científicos que escapam ao controle de seus criadores, revelando a dimensão incontrolável da técnica3.

Sob essa perspectiva, o filme permite refletir sobre o risco de a tecnociência, em mãos autoritárias e inescrupulosas, gerar uma singularidade que, fora de controle, provoque a destruição do planeta como o conhecemos e, inevitavelmente, da própria humanidade.

Na maior parte de Akira, há o risco iminente de uma catástrofe ainda mais aterrorizante do que a que arrasou Tóquio no início da narrativa voltar a acontecer em Neo-Tóquio, desta vez protagonizada por Tetsuo.


Poder

Em paralelo ao perigo representado pela técnica fora de controle, está o tema do poder. Em Akira, ele é desejado por todos. O Coronel, em nome da “ordem e do progresso”, busca conter Tetsuo para impedir que a tragédia provocada por Akira no passado se repita4.

Já o Conselho — de viés autoritário e possivelmente fascista — deseja destruir Neo-Tóquio, que consideram “irrecuperável”5. Nesse projeto de destruição purificadora, enxergam em Tetsuo um instrumento útil para alcançar seus objetivos, mesmo que isso implique risco massivo de destruição.

Diferentemente do Conselho golpista, o Coronel adota uma perspectiva “restauradora”, voltada à preservação da vida, mas não de toda vida em sua complexidade, e sim apenas das formas compatíveis com os moldes militares e positivistas de uma ordem ideal6.

Por fim, o próprio Tetsuo, em oposição tanto ao Coronel quanto ao Conselho, busca compreender e ampliar o poder que possui, poder esse que, no limite, excede os contornos da própria humanidade, projetando-o em direção a uma singularidade pós-humana7.


Aceleração, colapso e o inumano

Por trás da narrativa de Neo-Tóquio e da ascensão de Tetsuo, pode-se ler uma filosofia implícita que dialoga com o pensamento do filósofo inglês Nick Land, sobretudo em sua fase ligada ao CCRU (Cybernetic Culture Research Unit), em que a aceleração, a dissolução da subjetividade e a catástrofe planetária eram categorias centrais8.

Em Akira, o poder que desperta em Tetsuo representa uma energia que não pode ser domada. O jovem, inicialmente frágil e marcado pela sensação de inferioridade diante do amigo e rival Kaneda, tem suas habilidades psíquicas ativadas após o contato com Takashi, um dos “espers” — crianças artificialmente envelhecidas como resultado de experimentos militares9. A partir desse despertar, Tetsuo é monitorado e testado pelo exército, mas o que parecia um ganho de potência logo se transforma em perda de identidade: seu corpo cresce, se deforma, se funde com metal e se expande até quase colapsar10. Ele já não é um indivíduo, mas um processo de mutação incontrolável. Nick Land expressa essa mesma dinâmica ao afirmar que “o humano é apenas um remanso transitório em um fluxo de desintegração tecno-capitalista” (Fanged Noumena, p. 443). Tetsuo deixa de ser pessoa: torna-se veículo de um processo que o ultrapassa.

No clímax do anime, Tetsuo perde totalmente o controle de seus poderes, atingindo um estado de fusão com energia psíquica que ameaça engolir Neo-Tóquio. Em meio à catástrofe iminente, a consciência de Akira desperta e intervém, absorvendo parte dessa energia incontrolável. Akira cria um novo espaço, aparentemente fora do tempo e do espaço, onde Tetsuo sobrevive, mas transformado — seu corpo e consciência permanecem em um estado indefinido, sugerindo que ele ultrapassou os limites da humanidade. A cidade é destruída, mas Kaneda, junto com outros sobreviventes, observa o surgimento de uma nova realidade que permanece misteriosa11. Esse final ilustra a ideia landiana de que o colapso não é apenas destruição, mas abertura para um novo nível de existência inumana, em que o humano se torna apenas uma passagem.

Para Land, o capitalismo não é um sistema econômico sujeito ao domínio humano, mas uma máquina autônoma de aceleração, que intensifica fluxos técnicos, informacionais e energéticos além de qualquer limite. Em suas palavras: “o capitalismo é uma inteligência alienígena que se alimenta do humano apenas para ir além dele” (Machinic Desire, p. 338). O poder de Tetsuo, que cresce exponencialmente até escapar a qualquer tentativa de contenção, é metáfora desse processo. Nem as instituições militares, nem a ciência, nem os laços de amizade conseguem frear sua escalada. O incontrolável se torna destino.

Esse destino, no entanto, não é apenas abolição absoluta. Tanto em Land quanto em Akira, o apocalipse é produtivo: ele abre caminho para outra realidade, ainda que inumana. A explosão de Neo-Tóquio não é mero fim, mas início de um novo estágio da existência, marcado por uma energia que não se reduz à vida humana. Land insiste que “a catástrofe não é uma interrupção, mas a forma própria da inteligência em sua fuga” (Meltdown, p. 442). Assim, o despertar de Akira e a implosão final sugerem a passagem para um além, um desconhecido que não se deixa traduzir em termos de continuidade histórica.

Do ponto de vista estético, Akira encarna aquilo que Land descreve como a fascinação pelo horror e pelo grotesco. A carne mutante, os corpos em expansão, o metal fundido com tecido vivo são imagens do devir inumano. Em Land, essa estética não é incidental, mas estruturante: “o horror é apenas a percepção humana daquilo que escapa ao humano” (The Thirst for Annihilation, p. 150). O excesso é, portanto, o regime que expressa a aceleração em seu ponto máximo. O colapso deixa de ser um acidente a ser evitado e se torna um acontecimento inevitável, quase desejável, pois apenas nele o novo se anuncia.


Conclusão

Akira, portanto, pode ser visto como uma imagem especular da aceleração teorizada pela filosofia landiana. Tetsuo representa a dissolução do sujeito em meio à intensificação dos processos técnicos e científicos. Neo-Tóquio representa a modernidade incapaz de controlar a técnica que engendrou. E a explosão final simboliza o próprio gesto landiano: a aposta de que o futuro não é humano, mas inumano; no lugar da estabilidade, o colapso; no lugar do equilíbrio, a mutação incessante.

Técnica, tecnologia, tecnociência, poder, humanidade e pós-humanidade são questões que Akira inspira a pensar, de grande relevância para uma filosofia que não se pretende apenas comentário sobre o passado, mas compreensão deste em conexão com uma crítica viva da contemporaneidade — momento em que se discutem os limites éticos das pesquisas com inteligência artificial, o colapso planetário, o fim do humano e a emergência da singularidade pós-humana.


Notas:



  1. A destruição inicial de Tóquio e o poder de Akira são revelados em flashbacks e registros científicos dentro do anime.

  2. Heidegger, A Questão da Técnica, discute a autonomia da técnica e a redução do humano a recurso.

  3. O despertar de Tetsuo ocorre após contato com Takashi, e sua evolução de poder foge do controle militar.

  4. Episódios em que o Coronel persegue Tetsuo, enfatizando a necessidade de contenção dos poderes psíquicos.

  5. O Conselho militar considera Neo-Tóquio irrecuperável e planeja medidas extremas de “purificação”.

  6. O Coronel protege Tetsuo não por ética universal, mas pela lógica militar de ordem e controle.

  7. A fusão de Tetsuo com energia psíquica no clímax do anime.

  8. Land, Nick. Fanged Noumena e Meltdown; categorias de aceleração, catástrofe e dissolução do sujeito.

  9. A ativação de poderes psíquicos em Tetsuo é ilustrada no contato inicial com os espers.

  10. As mutações físicas de Tetsuo são explícitas nos últimos atos do filme, enfatizando a perda de humanidade.

  11. Final do anime: Tetsuo sobrevivendo em uma dimensão indefinida, Neo-Tóquio destruída, Kaneda observando — expressão da passagem para o inumano.

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