terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Análise Sincrônica e Diacrônica

 

  • Análise Sincrônica: Examina um sistema, como uma língua ou uma sociedade, em um ponto específico no tempo, focando-se em sua estrutura e funcionamento nesse momento particular. É um estudo "estático" ou transversal.
  • Análise Diacrônica (Histórica): Examina a evolução de um sistema ao longo do tempo, focando nas mudanças, desenvolvimentos e transformações históricas. É um estudo "dinâmico" ou longitudinal. Portanto:
  1. A análise que é sincrônica é a do ponto de vista estrutural. Ela foca em como todos os elementos da estrutura se relacionam em um dado momento.
  2. A análise do ponto de vista histórico é, por definição, diacrônica, pois estuda a mudança e o desenvolvimento através do tempo. 
Em resumo, a análise estrutural é sincrônica, enquanto a análise histórica é diacrônica.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Papai noel existe?

1) Quem acredita em Papai Noel? Por quê?


2) Lévi-Strauss

  • Cidade da França queimou Papai Noel.
  • Antropólogo pergunta:
  • Por que acreditamos?
  • Por que ele volta todo ano?
  • Por que isso importa para a sociedade?


3) Observações

a) Infância x Vida adulta

  • Crianças acreditam

  • Adultos “sabem a verdade”

  • Ritual de passagem

b) Ritual dos presentes

  • Dar/receber todo ano

  • Aproxima as pessoas

  • Mesmo sem acreditar, participamos

c) Valores

  • Bondade

  • Generosidade

  • Comunidade


4) Conclusões

Existe?

Papai Noel existe como história.

Por que acreditamos?

  • Precisamos de histórias e símbolos

  • Histórias → ajudam a entender quem somos

Por que volta todo ano?

  • Sociedades modernas ainda precisam de mitos

  • Mitos envolvem rituais:
    Passagem (infância → vida adulta)
    Dádiva (dar e receber presentes)
    Reforço de valores (bondade, generosidade)
    Reforço da comunidade (ceia, encontro familiar)

Referência

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Essência e Existência no Debate Medieval

O par essência / existência é um dos temas centrais da filosofia medieval, especialmente a partir da recepção de Aristóteles e do pensamento neoplatônico. Ele estrutura debates sobre:

- o que as coisas são (essência),

- o fato de que elas são (existência).

Embora já apareça em Aristóteles, esse debate ganha forma sistemática apenas na Idade Média, sobretudo em autores como Avicena, Tomás de Aquino e Duns Scotus.


1. Definições básicas

Essência (quididade, “o que é”)

É aquilo que define um ente como sendo o que ele é.

Ex: A essência de um triângulo é ser figura de três lados.


Existência (esse, “que é”)

É o ato pelo qual um ente está realmente sendo no mundo.

Ex: Saber o que é um triângulo não faz com que um triângulo exista concretamente.

Entes criados (como nós) têm essência e existência como princípios distintos.


2. Avicena (Ibn Sina) – A distinção real entre essência e existência

Avicena é um dos maiores responsáveis pela formulação clara da distinção.

Para ele:

Toda essência é concebível independentemente de ela existir ou não.

Você pode entender o que é um cavalo mesmo que nenhum cavalo exista.


Portanto, essência e existência são realmente distintas nos entes criados.

A essência não garante a existência.

Deus é o único ente cuja essência implica existência (necessário por si).

Essa formulação influenciará enormemente o pensamento cristão posterior.

3. Tomás de Aquino – A existência como ato do ser (actus essendi)


Tomás aceita a distinção aviceniana, mas lhe dá uma fundamentação metafísica mais radical.


Para ele:

- A existência é o ato mais profundo que atualiza a essência.

É aquilo que faz a essência “sair do possível” e estar no real.


- Nos entes criados, essência e existência são realmente distintas.

A essência não contém a existência. Um ser humano pode ser entendido sem que necessariamente exista.


- Em Deus, essência = existência.


Ele é ipsum esse subsistens, o próprio Ser subsistente.

Por isso Deus é necessário, simples e não composto.

Essa tese é um dos pilares da metafísica tomista.


4. Duns Scotus – A distinção formal

Scotus critica algumas conclusões de Tomás:

Para ele, se essência e existência fossem realmente distintas em cada ente, a unidade do indivíduo seria ameaçada.

Ele propõe uma solução intermediária:

>  Distinção formal (nem puramente real, nem meramente conceitual).

A essência e a existência são distinguíveis para o intelecto, mas não são duas “coisas” separadas no real.

Scotus busca salvar tanto a unidade do ente quanto a inteligibilidade das distinções.


5. Guilherme de Ockham – A crítica nominalista

Ockham radicaliza:

Para ele, essência e existência não são duas realidades distintas.

A distinção é apenas conceitual: um modo de falar.

O que existe é sempre o indivíduo concreto.

“Essência” é apenas um conceito que a mente forma ao observar semelhanças entre indivíduos.

Assim, rejeita universalismos fortes e reforça a virada empirista na filosofia.


6. O problema de fundo: por que a distinção importa?

As discussões medievais sobre essência e existência estão ligadas a temas maiores:


* Criação

Como explicar que os entes não existem por si mesmos?

Tomás: porque sua essência não contém sua existência; eles recebem o ser. 

Já Deus não é criado por nenhum outro ente. Em Deus essência e existente coexistem.


* Contingência e necessidade

Por que nós somos contingentes e Deus é necessário?

Avicena e Tomás: porque apenas em Deus essência e existência coincidem.


* Conhecimento e individuação

Scotus e Ockham levantam a questão: como conhecemos o que algo é?

Isso exige saber que tipo de distinção há entre o abstrato e o concreto.


* Problema dos universais

Toda a discussão medieval sobre universais está conectada à distinção entre o que algo é e o fato de existir.


7. Linha do tempo simplificada


Avicena (séc. XI) Distinção real entre essência e existência; só Deus tem essência que implica existência.

Tomás de Aquino (séc. XIII) Distinção real + existência como ato do ser; Deus = ser subsistente.

Duns Scotus (séc. XIII–XIV) Distinção formal; crítica a algumas consequências tomistas.

Ockham (séc. XIV) Distinção apenas conceitual; nominalismo.


8. Síntese


Na Idade Média, essência é “o que a coisa é”; existência é “o fato de que ela existe”.

Avicena e Tomás defendem que nos entes criados as duas coisas são realmente distintas.

Deus é o único para quem essência e existência são idênticas.

Scotus propõe uma distinção intermediária (formal).

Ockham diz que a distinção é apenas conceitual: só existem indivíduos.

O debate estrutura toda a metafísica medieval e sua relação com teologia, conhecimento e linguagem.

A essência da verdade – Martin Heidegger

 

1. O ponto de partida: por que perguntar pela essência da verdade?

Heidegger inicia perguntando: o que é verdade?
A resposta tradicional (de Aristóteles a quase toda a filosofia ocidental) é:

Verdade = adequação do pensamento ao objeto (correspondência).

Ou seja: um juízo é verdadeiro quando corresponde ao fato.
Heidegger não nega totalmente essa definição, mas quer perguntar algo mais profundo:

De onde vem a possibilidade dessa correspondência?
O que precisa existir para que algo possa “corresponder” a algo?

Essa investigação o leva a sair da teoria do conhecimento e entrar na ontologia (a questão do ser).


2. A correspondência depende de algo mais profundo: o desvelamento

    Heidegger afirma que só podemos dizer que um juízo corresponde a um fato porque o ente já está, de alguma forma, aberto para nós.
Ele chama essa abertura de:

ἀλήθεια (aletheia) = desvelamento / não-ocultamento

A verdade, em seu sentido originário, não é primeiro um acerto entre mente e mundo.
É o fato de que o mundo se mostra, se deixa ver.

- Há verdade porque algo já está desocultado.
- Só existe correspondência porque primeiro existe abertura ao ser.


3. Quem realiza esse desvelamento? O Dasein

O ser humano, para Heidegger, não é um sujeito que contempla um mundo externo; é um ser lançado já aberto ao mundo.

O nome disso é:

Dasein = ser-aí

O Dasein é aquele que:

  • já está no mundo,

  • já se relaciona com os entes,

  • já compreende, mesmo implicitamente, o ser das coisas.

Por isso o Dasein é o "lugar" em que a verdade acontece como desvelamento.


4. Mas o desvelamento inclui ocultamento

Esse é um dos pontos mais difíceis – e centrais – do texto.

Para Heidegger, toda abertura do ser vem sempre junto com um certo encobrimento.

Exemplo simples:

  • para ver um objeto sob uma determinada perspectiva, outras perspectivas ficam ocultas.

Assim:

A essência da verdade é ao mesmo tempo desvelamento e ocultamento.

Ou seja, nunca temos o ser "todo" disponível.
A verdade originária é ambivalente: ao mostrar, ela também esconde.


5. Liberdade como condição da verdade

Outro ponto fundamental do texto é que a essência da verdade está ligada à liberdade — mas não no sentido moral ou político.

Liberdade, para Heidegger, significa:

Ser-livre-para o desvelamento do ente.

Liberdade = deixar-ser o ente como ele é.

Isso quer dizer:

  • não forçar o mundo a se adequar aos nossos esquemas prévios,

  • não reduzir o ente a categorias rígidas,

  • permitir que o ser se manifeste.

Portanto:

A essência da verdade está fundada na liberdade.


6. Desvio e fechamento: quando a verdade se perde

Heidegger afirma que o ser humano pode perder essa abertura original.

Isso acontece quando:

  • nos prendemos a opiniões prontas,

  • nos submetemos ao impessoal (das Man),

  • deixamos de pensar e questionar.

Esse “fechamento” é o que ele chama de:

não-verdade (Unwahrheit)

Não é falsidade.
É um estado existencial de não abertura, uma fuga do desvelamento.


7. O texto culmina num convite ético-existencial: assumir a abertura

Heidegger não está apenas definindo “verdade”; ele está pedindo que assumamos uma postura:

  • de abertura,

  • de escuta do ser,

  • de questionamento,

  • de liberdade para deixar o ente se mostrar.

A essência da verdade, portanto, é:

-> A abertura do ser humano ao ser (desvelamento)
-> fundada na liberdade
_> e sempre acompanhada por ocultamento.


Síntese

  1. A definição comum de verdade (correspondência) depende de algo mais fundamental.

  2. Esse algo mais fundamental é o desvelamento (aletheia): o mundo se mostra.

  3. O ser humano (Dasein) é o lugar onde esse desvelamento ocorre.

  4. Toda revelação inclui ocultação; a verdade é essencialmente ambígua.

  5. A verdade funda-se na liberdade entendida como deixar-ser.

  6. A não-verdade é um fechamento existencial à abertura.

  7. Heidegger nos convida a uma postura de abertura ao ser.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Comentário sobre "Teoria Tradicional e Teoria Crítica" (1937) de Horkheimer

O texto "Teoria Tradicional e Teoria Crítica" é uma tentativa de Horkheimer de diagnosticar o seu tempo presente e verificar quais foram os impedimentos que impossibilitaram que o proletariado se reconhecesse como sujeito objeto-idêntico e que, portanto, o sistema capitalista e suas mazelas fossem superados. Na análise Horkheimer chega à conclusão que seria necessário não mais fazer a crítica ao sistema capitalista com um sistema que todos estavam exaustos de falarem, como um sistema opressor, explorador, e sim fazer uma crítica ao sistema ideológico que lhe dá sustentação. Chegamos, portanto, a teoria tradicional que segundo Horkheimer é o alicerce ideológico do capitalismo. Percebe-se uma mudança de paradigma em relação à Lukács, ou seja, que não caberia mais partir para uma práxis revolucionária, mas sim para uma teoria que fosse crítica da sociedade. Uma teoria que fosse em si mesma prática, capaz de transformar a realidade.

(I) Razão Instrumental:

Ela é considerada incapaz de fundamentar ou propor em discussão os objetivos ou finalidades com que os homens orientam suas próprias vidas, ela se ocupa apenas com a racionalidade dos meios e não dos fins. A razão é instrumental porque só pode identificar, construir e aperfeiçoar os instrumentos ou meios adequados para alcançar fins estabelecidos e controlados pelo “sistema” (sociedade administrada) a totalidade tendo em vista a anulação a destruição do indivíduo.

(II) Razão vital:

É a razão que se preocupa com o mundo dos homens e com a realização plena do conceito de homem, é uma razão crítica que é capaz de orientar e propor os fins propriamente humanos. A razão substantiva é crítica em si mesmo, só ela é capaz de transformar a realidade sem cair em ideologias ou práticas cegas.


Tese: "O pensamento crítico é motivado pela tentativa de superar realmente a tensão, de eliminar a oposição entre a consciência dos objetivos, espontaneidade e racionalidade, inerentes ao indivíduo, de um lado, e as relações do processo de trabalho, básicas para a sociedade, de outro. O pensamento crítico contém um conceito de homem que contraria a si enquanto não ocorrer esta identidade. Se é próprio do homem que seu agir seja determinado pela razão, a práxis social dada, que dá forma ao modo de ser (Dasein), é desumana, e essa desumanidade repercute sobre tudo o que ocorre na sociedade. Sempre permanecerá algo exterior à atividade intelectual e material, a saber, a natureza como uma sinopse de fatos ainda não dominados, com os quais a sociedade se ocupa. Mas neste algo exterior incluem-se também as relações constituídas unicamente pelos próprios homens, isto é, seu relacionamento no trabalho e o desenrolar de sua própria história, como um prolongamento da natureza. Essa exterioridade não é, contudo, uma categoria suprahistórica ou eterna – isso também não seria a natureza no sentido assinalado aqui –, mas sim o sinal de uma impotência lamentável e aceitá-la seria anti-humano e anti-racional.” (p.140)"

Horkheimer está descrevendo o que caracteriza o pensamento crítico e por que ele é diferente do pensamento conformista ou “tradicional”.

1. Há uma tensão fundamental na sociedade moderna

De um lado: a racionalidade, a consciência dos objetivos, a espontaneidade;  todas características do indivíduo humano.

Do outro:

as relações sociais de trabalho, o modo como a sociedade organiza a produção, que frequentemente não seguem a racionalidade do indivíduo, mas a da dominação, da alienação e do controle.

* O indivíduo tende a ser racional, mas o sistema de trabalho o impede de agir racionalmente.

2. O pensamento crítico nasce da tentativa de superar essa tensão

Enquanto essa oposição existir, o ser humano não coincide consigo mesmo: ele possui uma natureza racional, mas vive numa sociedade que não permite que essa racionalidade se realize. Por isso Horkheimer diz: "O pensamento crítico contém um conceito de homem que contraria a si enquanto não ocorrer esta identidade." Ou seja: o conceito de “humano racional” ainda não se realizou historicamente.

3. A práxis social existente é desumana

Horkheimer afirma que:
se o agir humano deveria ser determinado pela razão, e se a sociedade não permite isso, então a sociedade é desumana. Essa desumanidade contamina tudo: cultura, economia, política, relações pessoais.

4. Sempre existe algo exterior à razão: a natureza

Mas “natureza” aqui significa: os fatos ainda não dominados, aquilo que a sociedade ainda não controla plenamente. E Horkheimer acrescenta algo muito importante:

5. As próprias relações sociais também viraram “natureza”

Isto é: o modo como os homens trabalham, como produzem, como organizam a história, apesar de serem criações humanas, aparecem como se fossem forças naturais, inquestionáveis, dadas.

Exemplo contemporâneo:
“o mercado funciona assim”, “não há alternativa”, “a tecnologia exige isso”, etc.

* As relações humanas se tornam coisas, e por isso parecem exteriores e inevitáveis.

6. Essa exterioridade não é eterna

Nada disso é natural em sentido absoluto. É apenas expressão da: “impotência lamentável” dos seres humanos diante de suas próprias criações sociais. Aceitar essa impotência seria: anti-humano e anti-racional

Porque equivaleria a renunciar à capacidade humana de transformar a sociedade segundo a razão.

+ Em síntese,

Horkheimer está dizendo que:

O ser humano é racional por natureza.
Mas vive numa sociedade que não permite que sua racionalidade se realize.
O pensamento crítico existe para superar essa contradição, transformando as relações sociais.
Relações sociais que parecem naturais ou inevitáveis (como formas de trabalho, hierarquias, modos de produção) não são naturais; são resultado da história e podem ser transformadas.
Aceitar essas relações como “naturais” é negar o que há de humano e racional em nós.

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Horkheimer, Teoria tradicional e teoria crítica 

Referência: HORKHEIMER, Max. Teoria Tradicional e Teoria Crítica. In: ________. Os Pensadores. v. XLVIII. São Paulo: Victor Civita, 1975, pp. 125-169.

https://grupocriticaedialetica.wordpress.com/wp-content/uploads/2013/05/horkheimer-tttc1.pdf

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Manuscritos econômico-filosóficos de Karl Marx (1844)

1. O que são os Manuscritos?

    São cadernos de estudo escritos por Marx em Paris, em 1844, durante sua fase de formação filosófica e econômica. Não foram publicados em vida.

    Mostram Marx ainda dialogando intensamente com Hegel e Feuerbach, e ao mesmo tempo estudando a economia política inglesa (Smith, Ricardo, Stuart Mill).

Eles são fundamentais porque revelam:

  •     a primeira formulação da teoria da alienação;
  •     a concepção do trabalho como atividade vital humana;
  •     o início da crítica estrutural ao capitalismo;
  •     o esboço filosófico do conceito de ser genérico (Gattungswesen).


2. Três eixos

(1) Crítica à economia política

Marx estuda os economistas clássicos e conclui que:

  • A economia burguesa trata o trabalhador como mercadoria.

  • A produção de riqueza envolve, simultaneamente, a produção de pobreza (empobrecimento relativo e, em certos casos, absoluto).

  • O trabalho, que deveria ser uma atividade humana livre e criativa, torna-se trabalho alienado.

  • No capitalismo, o trabalhador não controla:

    - o produto do trabalho,

    - o processo de trabalho,

    - o sentido ou finalidade do trabalho,

    - nem suas relações com os demais trabalhadores.

(2) O conceito de trabalho alienado

É o centro filosófico dos Manuscritos.

Marx identifica quatro dimensões da alienação:

  1. Do produto – o trabalhador cria algo que não lhe pertence.

  2. Da atividade – o trabalho se torna externo, forçado, reduzido a meio de sobrevivência.

  3. Da essência humana – a atividade vital deixa de ser livre e criadora; o ser humano se reduz a instrumento.

  4. Do outro ser humano – as relações se reduzem ao mercado: competição, interesse, exploração.

    Alienar significa separar o trabalhador de algo que deveria pertencer a ele como ser humano: sua criatividade, seu tempo, sua relação com a natureza e com os outros.

(3) O ser genérico (Gattungswesen)

Marx formula uma pergunta filosófica básica: O que é o ser humano?

A resposta, nos Manuscritos, é antropológica, social e histórica:

  • O ser humano não é definido por uma alma nem por uma razão abstrata.

  • Ele se define pela capacidade de produzir sua existência, transformar a natureza conscientemente e viver socialmente.

Por isso, Marx diz que o ser humano é um ser genérico (Gattungswesen).

Ser genérico significa:

(a) capacidade de projetar, criar, imaginar — ultrapassar o imediato;
(b) capacidade de se relacionar consigo e com os outros de forma consciente e mediada pelo trabalho;
(c) uma existência essencialmente social, nunca isolada;
(d) uma essência construída historicamente, não natural ou fixa.

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(4)  O trabalho


O trabalho é, portanto:

- expressão da essência humana (Wesen des Menschen)
- mediação fundamental entre homem e natureza;
- atividade livre, criadora e consciente (em potencial).

* A alienação é justamente a destruição da possibilidade de efetuação da essência humana.


5. Hegel e Feuerbach

De Hegel, Marx herda a ideia de que a realidade é histórica, dinâmica e contraditória.   Mas critica Hegel por seu idealismo. Para Marx, o sujeito real não é o Espírito, mas o ser humano concreto em sua vida material.

De Feuerbach, Marx herda o materialismo humanista: a essência humana é social, não espiritual. Mas substitui o “materialismo contemplativo” por um materialismo histórico e prático.

Feuerbach observa a alienação na religião; Marx desloca a crítica para a produção material, onde a alienação se origina.


6. Jovem Marx → Marx maduro

Os Manuscritos mostram o processo de metamorfose intelectual:

Marx jovem:

  • crítica humanista do capitalismo;

  • linguagem de essência, natureza humana, ser genérico.

Marx maduro (O Capital):

  • crítica científica e estrutural do capitalismo;

  • categorias como valor, mais-valia, mercadoria, fetichismo*;

  • abandono da linguagem essencialista.


  * Marx não abandona a ideia de alienação; ele a reformula como fetichismo da mercadoria.


5. Questões 

    O que significa trabalhar para sobreviver, e não para se realizar?

    Trabalhar para sobreviver significa que a atividade laboral é reduzida a meio de subsistência,  não expressando sua individualidade nem suas capacidades criadoras.

    Trabalhar para se realizar é a atividade vital pela qual o ser humano objetiva a si mesmo, encontrando no produto a materialização de sua liberdade.    

 Como a alienação aparece hoje (no trabalho digital, plataformas,      automação)?

1. Produto alienado
O que produzimos vira propriedade das plataformas (posts, dados, conteúdo, avaliações).
Quem ganha mais é a empresa, não o trabalhador.

2. Trabalho controlado por algoritmos
Plataformas decidem rotas, horários, relevância, metas e visibilidade (Uber, iFood, Instagram).
A pessoa perde controle sobre sua própria atividade.

3. Trabalho vira sobrevivência, não realização
A lógica é cumprir tarefas para “bater meta”, conseguir corrida, manter engajamento ou avaliação — não criar, aprender ou se desenvolver.

4. Relações sociais viram números
Likes, entregas por hora, notas de usuários, métricas de performance.
As pessoas aparecem como “clientes”, “seguidores” ou “concorrência”.

5. Automação aprofunda a dependência
Máquinas e IA fazem parte do trabalho, mas quem decide tudo é o sistema.
O trabalhador executa o que o algoritmo manda.

O trabalhador controla o que produz ou participa só de um fragmento?

No capitalismo, em geral não. O trabalhador participa apenas de um fragmento do processo produtivo.

Por quê?

O trabalho é dividido em tarefas pequenas e repetitivas.

Quem decide o que fazer, como fazer e para quê fazer é a empresa, não o trabalhador.

O produto final é resultado de uma cadeia enorme – o trabalhador vê apenas sua parte, não o todo.

Resultado (alienação):

O trabalhador não reconhece o produto como seu.

Não controla o processo, nem os objetivos.

A atividade perde sentido e vira apenas meio de sobrevivência.

  • O que Marx quer dizer exatamente com “essência humana”?

    Para Marx, a essência humana não é algo natural ou individual, mas social e histórica. Ela consiste no conjunto das relações sociais e na capacidade de produzir conscientemente a própria vida. O ser humano se define pelo trabalho criador e pela vida em comum, mas no capitalismo essa essência é alienada, porque o trabalho deixa de ser livre e se torna apenas um meio de sobrevivência e não de realização.
  • Em que o jovem Marx difere do Marx de O Capital?

O jovem Marx (dos Manuscritos de 1844) pensa o capitalismo a partir de categorias filosófico-humanistas, como alienação, essência humana e realização da espécie. Ele se preocupa com a experiência subjetiva do trabalhador, com a perda de sentido no trabalho e com a ideia de ser genérico. Sua crítica é mais ética e antropológica.

Já o Marx de O Capital faz uma análise científica, econômica e estrutural do modo de produção capitalista. Ele explica como o capitalismo funciona por meio de categorias como mais-valia, capital, mercadoria, força de trabalho, acumulação, e mostra as leis objetivas do sistema. A alienação reaparece como fetichismo da mercadoria, não mais como essência humana negada.

Em resumo:

O jovem Marx critica o capitalismo a partir do humanismo e da alienação; o Marx maduro analisa o capitalismo a partir da economia política, das relações de produção e das leis do capital.