quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Citações

Episteme

"Suponha que um desses prisioneiros fosse liberto e forçado a levantar-se subitamente, a virar a cabeça, a andar e a olhar para a luz. Todos esses movimentos seriam dolorosos e, por causa do ofuscamento, ele seria incapaz de ver os objetos cujas sombras antes contemplava. O que achas que ele responderia se alguém lhe dissesse que tudo o que ele vira até então não passava de ilusão e futilidade, mas que agora, estando mais próximo da realidade e voltado para coisas mais reais, ele via com maior exatidão? [...]

E se alguém o arrastasse dali à força, pela subida íngreme e ríspida, e não o largasse antes de tê-lo puxado para a luz do sol, não sofreria ele e não se irritaria por ser assim arrastado? E, ao chegar à luz, com os olhos ofuscados pelo brilho, não seria capaz de ver nem mesmo uma das coisas que agora chamamos de verdadeiras.


Precisaria habituar-se para conseguir ver as coisas do mundo superior. Primeiro, olharia mais facilmente para as sombras, depois para as imagens dos homens e dos outros objetos refletidas na água e, por fim, para os próprios objetos.

[...] Essa imagem, meu caro Glauco, deve ser aplicada integralmente ao que dissemos anteriormente: a caverna habitada representa o mundo visível [das opiniões]; a luz do fogo que ilumina o seu interior é a força do Sol; e a ascensão ao mundo superior e a contemplação das coisas que nele existem representam a elevação da alma ao mundo inteligível."

— PLATÃO, A República, Livro VII, 515c–517a.

Conexão com a fase de diagnóstico

Platão mostra que passar da opinião (doxa) para o conhecimento examinado (episteme) exige esforço e romper com o conforto das sombras (as velhas certezas subjetivas da comunidade).

Os dados coletados pelos alunos funcionam exatamente como o ato de "virar a cabeça e sair da caverna": abandonar o achismo habitual para encarar a realidade dos fatos com clareza crítica.

Ttrecho do Livro I (Alfa) de Metafísica de Aristóteles (especificamente em 982b, linhas 10-20), onde o filósofo trata do "espanto" (thauma) como o impulso inicial da Filosofia, diz o seguinte:

"Com efeito, foi pela admiração [espanto] [thauma] que os homens começaram a filosofar, tanto no princípio como agora; no começo, admiraram-se ante as dificuldades mais comuns; depois, avançando passo a passo, chegaram a problemas maiores, tais como os fenômenos da Lua, do Sol e das estrelas, e a gênese do universo.

Ora, quem se sente perplexo e admirado reconhece sua própria ignorância (por isso, também quem ama os mitos é, de certo modo, filósofo, pois o mito se compõe de maravilhas); de modo que, se filosofaram para fugir da ignorância, é claro que buscavam o conhecimento pelo saber mesmo, e não por qualquer utilidade prática."

— ARISTÓTELES, Metafísica, Livro I (Alfa), 982b 11-21.

A Admissão da Ignorância: Aristóteles mostra que o primeiro passo para investigar é reconhecer que não sabemos tudo (superando a opinião / doxa).

Do Simples ao Complexo: Os alunos começaram observando problemas aparentes da comunidade ("dificuldades mais comuns") e, ao coletar dados, passaram a analisar as "causas maiores" (a estrutura social e ética do problema).


"Resposta à pergunta: O que é o Iluminismo?" (Anantwortung auf die Frage: Was ist Aufklärung?), publicado por Kant em 1784:

    "O Iluminismo [Esclarecimento] é a saída do homem da menoridade da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do seu próprio entendimento sem a direção de outro. O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando a sua causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem de fazer uso dele sem a direção de outro.

    Sapere aude! Tem a coragem de fazer uso do teu próprio entendimento! Eis a divisa do Iluminismo."

    — KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: O que é o Iluminismo? (1784).

 

Cidadania

1. O Pacto Social e a Criação do Cidadão

(Livro I, Capítulo VI — Do Pacto Social)

Neste capítulo, Rousseau apresenta a transição do estado de natureza para a sociedade civil através da criação da Vontade Geral:

"Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja, com toda a força comum, a pessoa e os bens de cada associado, e pela qual cada um, unindo-se a todos, não obedeça todavia senão a si mesmo e permaneça tão livre quanto antes. Esse é o problema fundamental cuja solução é dada pelo Contrato Social. [...]"

"Cada um de nós põe em comum sua pessoa e todo o seu poder sob a suprema direção da vontade geral; e recebemos, enquanto corpo, cada membro como parte indivisível do todo.

Imediatamente, em vez da pessoa particular de cada contratante, esse ato de associação produz um corpo moral e coletivo [...]. Esta pessoa pública, que se forma assim pela união de todas as outras, tomava outrora o nome de cidade, e toma agora o de república ou de corpo político [...]. Quanto aos associados, eles tomam coletivamente o nome de povo, e se chamam em particular cidadãos, enquanto participantes da autoridade soberana, e súditos, enquanto submetidos às leis do Estado."

 A Soberania do Povo e o Bem Comum

(Livro II, Capítulo I — A Soberania é Inalienável)

Neste trecho, Rousseau estabelece que o exercício da cidadania através da soberania popular só faz sentido quando voltado exclusivamente ao bem comum:

*"A primeira e mais importante consequência dos princípios anteriormente estabelecidos é que só a vontade geral pode dirigir as forças do Estado de acordo com a finalidade de sua instituição, que é o bem comum; pois, se o oposição dos interesses particulares tornou necessário o estabelecimento das sociedades, foi o acordo desses mesmos interesses que o tornou possível. O que há de comum nesses diferentes interesses é o que forma o vínculo social; e se não houvesse algum ponto em que todos os interesses concordassem, nenhuma sociedade poderia existir. Ora, é unicamente com base nesse interesse comum que a sociedade deve ser governada.

Digo, pois, que a soberania, não sendo senão o exercício da vontade geral, jamais pode alienar-se, e que o soberano, que não é senão um ser coletivo, não pode ser representado a não ser por si mesmo; o poder pode transmitir-se, mas não a vontade."

  • No Livro I, Cap. VI:  ser cidadão significa deixar de agir apenas como um indivíduo isolado com vontades egoístas para se tornar "parte indivisível do todo", comprometido com a coletividade.

  • No Livro II, Cap. I:  intervir na comunidade exige identificar os pontos de acordo e o interesse comum (revelados no diagnóstico), exercendo a soberania de forma direta e sem delegar sua responsabilidade.

  •  

     

    Nenhum comentário:

    Postar um comentário