Adão, ainda que supuséssemos que suas faculdades racionais fossem inteiramente perfeitas desde o início, não poderia ter inferido da fluidez e transparência da água que ela o sufocaria, nem da luminosidade e calor do fogo que este poderia consumi-lo. Nenhum objeto jamais revela, pelas qualidades que aparecem aos sentidos, nem as causas que o produziram, nem os efeitos que dele provirão; e tampouco nossa razão é capaz de extrair, sem auxílio da experiência, qualquer conclusão referente à existência efetiva de coisas ou questões de fato.
HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Unesp, 2003
Segundo o autor, qual é a origem do conhecimento humano?
A) A potência inata da mente.
B) A revelação da inspiração divina.
C) O estudo das tradições filosóficas.
D) A vivência dos fenômenos do mundo.
Será que as coisas lhe pareceriam diferentes se, de fato, todas elas existissem apenas na sua mente — se tudo o que você julgasse ser o mundo externo real fosse apenas um sonho ou alucinação gigante, de que você jamais fosse despertar? Se assim fosse, então é claro que você nunca poderia despertar, como faz quando sonha, pois significaria que não há mundo “real” no qual despertar. Logo, não seria exatamente igual a um sonho ou alucinação normal.
NAGEL, T. Uma breve introdução à filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
O texto confere visibilidade a uma doutrina filosófica contemporânea conhecida como:
- Gabarito: E
- A alternativa está correta porque o texto constrói seu argumento inteiramente em torno da perspectiva individual e intransferível (“sua mente”, “você jamais fosse despertar”). Essa ênfase radical na centralidade do “eu” como a única coisa cognoscível, e a consequente dúvida sobre a existência de qualquer realidade externa ou “experiência compartilhada”, é a tese fundamental do Solipsismo.
- Definição: (Do latim solus, “só”, e ipse, “ele mesmo”). É a teoria filosófica de que apenas o eu e suas experiências mentais podem ser comprovados como existentes. Todo o resto (o mundo externo, outras mentes) é incognoscível ou pode não existir.
- Relação com o Texto: O texto descreve perfeitamente a premissa solipsista. Se tudo é um sonho seu, não há como provar a existência de um mundo fora desse sonho. Consequentemente, a ideia de uma “experiência compartilhada” se torna impossível de verificar, uma limitação cognitiva fundamental.
Uma imagem poderosa pode transformar um conceito abstrato em uma memória inesquecível. A ilustração a seguir foi criada para visualizar a essência da nossa análise, tornando a ideia central clara e impactante:
*Idealismo não nega que existam coisas fora da mente, mas que não temos acesso a elas em si, apenas como representaçaõ.
O Idealismo é o “primo” mais moderado do Solipsismo. O Idealismo diz que “a realidade depende da mente”, mas geralmente admite que outras mentes existem. O Solipsismo é mais radical: diz que “a realidade depende da MINHA mente”. Como o texto de Nagel força o leitor a adotar essa perspectiva radicalmente individual (“sua mente”), ele se aproxima mais do Solipsismo.
O justo e o bem são complementares no sentido de que uma concepção política deve apoiar-se em diferentes ideias do bem. Na teoria da justiça como equidade, essa condição se expressa pela prioridade do justo. Sob sua forma geral, esta quer dizer que as ideias aceitáveis do bem devem respeitar os limites da concepção política de justiça e nela desempenhar um certo papel.
RAWLS, J. Justiça e democracia. São Paulo: Martins Fontes, 2000 (adaptado).
Segundo Rawls, a concepção de justiça legisla sobre ideias do bem, de forma que
A) as ações individuais são definidas como efeitos determinados por fatores naturais ou constrangimentos sociais.
B) o estudo da origem e da história dos valores morais concluem a inexistência de noções absolutas de bem e mal.
C) o próprio estatuto do homem como centro do mundo é abalado, marcando o relativismo da época contemporânea.
D) as intenções e bens particulares que cada indivíduo almeja alcançar são regulados na sociedade por princípios equilibrados.
E) o homem é compreendido como determinado e livre ao mesmo tempo, já que a liberdade limita-se a um conjunto de condições objetivas.
Resolução em texto
📘 Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Filosofia Política, Teoria da Justiça, Pensamento Contemporâneo.
📔 Nível da Questão: Difícil (nível vestibular ou ENEM 2ª fase).
✅ Gabarito: D) as intenções e bens particulares que cada indivíduo almeja alcançar são regulados na sociedade por princípios equilibrados.
🎯 Tema/Objetivo Geral: Compreender o conceito de justiça como equidade em Rawls e sua relação com as ideias individuais de bem.
🔷 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
📌 Retomando o comando:
O enunciado nos pergunta como, segundo Rawls, a justiça legisla sobre as ideias do bem.
📌 Explicação detalhada do que está sendo pedido:
Quer saber de que maneira a justiça organiza ou limita as concepções individuais de bem em uma sociedade pluralista, segundo a teoria da “justiça como equidade” de Rawls.
📌 Palavras-chave destacadas:
Justiça
Equidade
Ideias do bem
Regular e equilibrar intenções e bens particulares
📌 Objetivo claro:
Encontrar a alternativa que melhor explique que a justiça regula os desejos individuais para garantir o equilíbrio e a convivência social.
📌 Dica Geral:
⚡ Quando uma questão falar sobre Rawls, pense em duas ideias-chave: princípios de justiça acima das vontades individuais e equidade como garantia da liberdade e igualdade para todos.
📣 Elemento de Esclarecimento:
Você entendeu isso?
➡️ Se sim, você percebeu que, para Rawls, o que cada um quer não é eliminado, mas deve se ajustar a um conjunto de princípios de justiça comuns, para garantir uma sociedade mais justa para todos!
➡️ Vamos aprofundar essa ideia agora!
🔷 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
📌 Conceito de Justiça como Equidade:
Rawls propõe que princípios de justiça sejam escolhidos sob um “véu de ignorância” — como se ninguém soubesse sua posição social futura — para garantir imparcialidade.
✔ A justiça deve regular as ações e objetivos individuais sem impedir que cada um busque seu próprio bem, desde que respeite princípios comuns.
📌 Prioridade do Justo sobre o Bem:
Significa que as diferentes concepções de bem pessoal só são legítimas se não ferirem os princípios de justiça.
📌 Equilíbrio entre Liberdade e Justiça:
Os indivíduos são livres para buscar seus projetos de vida, mas suas ações devem estar em harmonia com os princípios de justiça da sociedade.
🔷 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
📌 Análise do Contexto:
A justiça como equidade exige que diferentes concepções de bem respeitem um conjunto de princípios comuns.
O texto enfatiza que a justiça não elimina as ideias individuais do bem, mas delimita seu papel na organização política.
📌 Frases-chave:
“Prioridade do justo.”
“As ideias aceitáveis do bem devem respeitar os limites da concepção política de justiça.”
📌 Conexão com a Teoria:
O texto indica que a justiça regula, organiza e harmoniza as ações particulares para garantir a convivência social justa.
🔷 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
📌 Resumo do raciocínio até aqui:
Cada pessoa tem suas próprias ideias sobre o que é bom ou desejável (seus bens particulares).
A justiça cria princípios que regulam essas ideias para que possam coexistir em uma sociedade livre e equitativa.
Ou seja, ninguém é impedido de buscar seu próprio bem, mas deve respeitar limites justos que protejam a liberdade e a igualdade de todos.
✔ Importante reforço:
Essa é a essência do conceito rawlsiano: uma sociedade justa não suprime o pluralismo de ideias, mas organiza-o para que todos possam coexistir com liberdade e respeito.
🔷 Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
📌 Reescrita e Análise de Cada Alternativa:
❌ A) As ações individuais são definidas como efeitos determinados por fatores naturais ou constrangimentos sociais:
Errada. Rawls acredita na autonomia individual dentro dos princípios justos, e não na determinação absoluta por fatores externos.
❌ B) O estudo da origem e da história dos valores morais concluem a inexistência de noções absolutas de bem e mal:
Errada. A questão não fala sobre relativismo moral, mas sobre a prioridade da justiça sobre as concepções individuais.
❌ C) O próprio estatuto do homem como centro do mundo é abalado, marcando o relativismo da época contemporânea:
Errada. Rawls não discute a questão do homem como centro ou o relativismo cultural no trecho apresentado.
✅ D) As intenções e bens particulares que cada indivíduo almeja alcançar são regulados na sociedade por princípios equilibrados:
Correta! Rawls defende exatamente isso: cada pessoa tem seus objetivos pessoais, mas eles precisam ser compatíveis com princípios de justiça que garantam liberdade e equidade.
❌ E) O homem é compreendido como determinado e livre ao mesmo tempo, já que a liberdade limita-se a um conjunto de condições objetivas:
Errada. Essa formulação se aproxima de temas existencialistas e deterministas, que não são foco no pensamento de Rawls aqui.
🔷 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 Conclusão:
De acordo com John Rawls, na teoria da justiça como equidade, a justiça regula as concepções individuais do bem, garantindo que a liberdade de cada pessoa seja harmonizada com os direitos e liberdades dos demais, dentro de princípios equilibrados.
✅ Alternativa correta: D) as intenções e bens particulares que cada indivíduo almeja alcançar são regulados na sociedade por princípios equilibrados.
📌 🔍 Resumo Final:
Para Rawls, a justiça age como um filtro que organiza as diferentes ideias de bem pessoal, garantindo que todas possam coexistir em uma sociedade democrática justa, onde a liberdade e a igualdade de todos são respeitadas.
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A economia das ilegalidades se reestruturou com o desenvolvimento da sociedade capitalista. A ilegalidade dos bens foi separada da ilegalidade dos direitos. Divisão que corresponde a uma oposição de classes, pois, de um lado, a ilegalidade mais acessível às classes populares será a dos bens — transferência violenta das propriedades; de outro, à burguesia, então, se reservará a ilegalidade dos direitos: a possibilidade de desviar seus próprios regulamentos e suas próprias leis; e essa grande redistribuição das ilegalidades se traduzirá até por uma especialização dos circuitos judiciários; para as ilegalidades de bens — para o roubo — os tribunais ordinários e os castigos; para as ilegalidades de direitos — fraudes, evasões fiscais, operações comerciais irregulares jurisdições especiais com transações, acomodações, multas atenuadas etc.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.
O texto apresenta uma relação de cálculo político-econômico que caracteriza o poder punitivo por meio da
a) gestão das ilicitudes pelo sistema judicial.
b) aplicação das sanções pelo modelo equânime.
c) supressão dos crimes pela penalização severa.
d) regulamentação dos privilégios pela justiça social.
e) repartição de vantagens pela hierarquização cultural.
- Tema/Objetivo Geral: Analisar a crítica de Foucault à seletividade do sistema punitivo no capitalismo, que trata diferentes tipos de crimes e classes sociais de maneiras distintas e estratégicas.
- Gabarito: A) gestão das ilicitudes pelo sistema judicial.
- Explicação Resumida: A alternativa está correta porque Foucault descreve um sistema que não apenas pune, mas administra e gerencia os crimes de forma diferenciada, usando a lei como uma ferramenta para manter a estrutura de poder de classes.
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